quinta-feira, 9 de julho de 2026

1475 - A criação de uma interface de comunicação para um paciente paralisado

Roxana Tabakman, bióloga, jornalista científica e escritora
Uma equipe multidisciplinar formada por médicos, engenheiros, enfermeiros e fisioterapeutas desenvolveu um dispositivo que permitiu a comunicação, por meio dos pés, de um paciente internado em Natal -RN com um quadro semelhante à Síndrome do Encarceramento (Locked-in Syndrome – LIS). O homem, com paralisia total de todos os músculos do corpo, exceto os dos pés, estava totalmente consciente, com sensibilidade, visão e audição preservadas.
Profissional da área de Tecnologia da Informação, de 38 anos e sem doenças preexistentes, ele apresentou inicialmente sintomas gripais. Pouco tempo depois, foi diagnosticado com Síndrome de Guillain-Barré (SGB) com envolvimento bulbar. A ptose palpebral bilateral impedia a comunicação por meio dos olhos.
O principal mérito na condução do caso foi a criação de uma interface de comunicação para um paciente com uma apresentação atípica da SGB. Segundo ele, entre 85% e 90% dos casos seguem o padrão clássico de início distal, com fraqueza que começa nos pés e progride de forma ascendente pelo corpo. Além disso, nem todos os pacientes evoluem para quadros tão graves quanto o descrito. Em muitos casos, há redução da força muscular, mas não sua perda completa, o que permite a comunicação por meio dos dedos das mãos ou dos movimentos oculares.
A primeira estratégia de comunicação foi bastante simples: a equipe pediu à família que levasse um pequeno sino, que foi preso ao pé do paciente. A partir daí, estabeleceu-se um código básico de respostas: um movimento para indicar “sim” e dois movimentos para indicar “não”.
Rapidamente, os pesquisadores estabeleceram uma parceria com a Natal Makers, empresa especializada em prototipagem e automação. Em apenas um mês, a equipe multidisciplinar desenvolveu o dispositivo batizado de “Podovox” (podo = pé; vox = voz). Composto por peças de acrílico, conectores metálicos, componentes Arduino, fiação, alto-falantes e controlado por um software personalizado, o Podovox possibilitou a comunicação entre o paciente, a família e a equipe de saúde.
O paciente foi treinado para utilizar os pedais acoplados aos pés. Como conseguia realizar movimentos de flexão, extensão e lateralização, a equipe atribuiu uma pontuação específica a cada movimento. Com a combinação dos dois pedais, o paciente digitava códigos. Dependendo da sequência de movimentos realizada, o sistema gerava uma frase específica, reproduzida por uma voz sintetizada nos alto-falantes do dispositivo.
Dispositivo em funcionamento, instalado na cama do paciente: Componentes: (1) Tecla 1; (2) Tecla 2; (3) Tecla 3; (4) Tecla 4; (CC) Central de Comando/ Fonte: Fotografias dos autores. 
A equipe de saúde desenvolveu frases pré-definidas relacionadas ao controle da dor e ao monitoramento da resposta ao tratamento. Outras frases também puderam ser programadas, permitindo que o paciente expressasse sentimentos, necessidades e emoções. Ele próprio solicitou um sistema para informar quando estivesse dormindo, pois, com os olhos permanentemente fechados, ninguém conseguia saber se estava acordado ou não. Assim, ao digitar um determinado código com os pés, uma luz vermelha permanecia acesa enquanto dormia. Ao acordar, acionava outro código, e a luz passava a ser verde.
Segundo os autores, o Podovox contribuiu significativamente para a reabilitação física e psicológica do paciente, além de reduzir a ansiedade e a preocupação dos familiares.Após sete meses, o paciente se recuperou completamente.
Citação deste artigo: Como um sonho ajudou a criar uma interface de comunicação para um paciente paralisado - Medscape - 29 de junho de 2026.

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