quinta-feira, 19 de maio de 2022

1256 - A natureza probabilística da Medicina

Em Medicina, existe uma limitação poucas vezes confessada em consultório (porque isso quase que invariavelmente se traduz em demonstração de fraqueza): é que esse é um ofício de incerteza.
Neste fio, eu discorro sobre a natureza probabilística da Medicina. - José Alencar

A Medicina é uma ciência da incerteza porque:
1. Trabalhamos com incerteza na interpretação de exames
2. Trabalhamos com incerteza na interpretação da resposta dos pacientes às terapias
Vou explicar ambas.

1. Incerteza na interpretação de exames:
Nas mãos de um médico minimamente bem formado, a interpretação de um exame não é “positivo x negativo”, mas “verdadeiro x falso positivo, verdadeiro x falso negativo”.
Só isso já acrescenta uma camada de dificuldade maior à profissão.

Mas há outra camada ainda mais profunda: a maioria dos médicos acredita que “sensibilidade” e “especificidade”, duas características presentes em todos os testes da Medicina, são úteis para a interpretação de exames.

O problema disso é que, ao usar esses parâmetros, o médico não leva em consideração a clínica do paciente. É que, como expliquei diversas vezes, a interpretação de qualquer exame OBRIGATORIAMENTE tem que partir da probabilidade clínica da doença.

É literalmente impossível avaliar exames de outra forma que não seja essa. O que significa que “bateria de exames”, “check-ups”, exames solicitados antes da consulta, exames solicitados pelo paciente...
Tudo isso funciona muito pouco ou nada. Lamento ser eu a te dizer isso.

E uma limitação real da Medicina (e não do método) é que às vezes o médico simplesmente desconhece uma variável da fórmula: a probabilidade pré-teste.
De novo: essa é uma limitação da vida, não do método.
Não se justifica usar o método errado porque a vida te impõe um problema.

2. Incerteza na interpretação da resposta a tratamentos:
Na vida real, dificilmente pode-se dizer que houve cura de um paciente.
- A mortalidade de um infarto sem aspirina e sem reperfusão é de 13% e com eles é de 8%. Como saber se um sobrevivente não é um daqueles 87%?

- No NINDS 2, sem medicação, 39% dos pacientes com AVC melhoraram. Com medicação, 47%.
Se um paciente fica sem sequelas, como afirmar que foi o trombolítico que levou a esse desfecho e o paciente não seria um dos 39% que já ficaria bem?

- A probabilidade de morrer por coronavírus tem sido de 2,8% (no Brasil). Se alguém tomou ivermectina/cloroquina/qualquer bizarrice e se curou, como afirmar que foi a bizarrice que lhe curou? Como afirmar que ele não seria um dos 97,2% que sobrevivem?

A única forma de saber isso é com estudos científicos, como o dois primeiros exemplos em que se comprova que há uma REDUÇÃO DE PROBABILIDADES quando se usa o remédio.
Medicina de verdade é isso: uma arte das probabilidades.

A medicina é a ciência da incerteza e a arte da probabilidade.
A variabilidade é a lei da vida, e como duas faces não são iguais, não há dois corpos iguais e dois indivíduos não reagem e se comportam da mesma forma sob as condições anormais que conhecemos como doença.
Quanto maior a ignorância, maior o dogmatismo.
A dúvida é o travesseiro do médico.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

1255 - O perigo do sistema de sucção de uma piscina

Uma criança não deve se aproximar de um orifício de sucção de uma piscina, especialmente em uma grande piscina coletiva onde a bomba de sucção costuma ser potente.
Se um dreno não tiver uma grade de proteção, por exemplo, é um perigo potencial.
A criança pode ficar presa debaixo d'água, sugadas pelos buracos. Sem falar nos casos, felizmente muito raros, de crianças que sentaram em bueiros e foram evisceradas pelo ânus.
Os cabelos compridos também podem ser sugados por esses sistemas de sucção, como no caso mostrado neste vídeo.

Os mesmos perigos também existem em banheiras de hidromassagem.
Portanto, é necessário ensinar as crianças a ter cuidado com esses sistemas de sucção que, muitas vezes, podem parecer divertidos. E sempre ficar de olho nelas, é claro.
Arquivo
208 - Escalpelamentos na Amazônia
541 - Campanha Nacional de Combate ao Escalpelamento
1141 - Escalpelamento pelo kart

quinta-feira, 5 de maio de 2022

1254 - Dispositivo "worm-on-a-chip" na detecção precoce do câncer de pulmão

SAN DIEGO, 20 de março de 2022 – Os cães podem usar seu incrível olfato para farejar várias formas de câncer na respiração humana, sangue e amostras de urina. Da mesma forma, no laboratório, um organismo muito mais simples, o verme C. elegans, abre caminho em direção às células cancerígenas seguindo um rastro de odor. Hoje, os cientistas apresentam um dispositivo que usa os minúsculos vermes para detectar células de câncer de pulmão. Esse "worm-on-a-chip" pode um dia ajudar os médicos a diagnosticar o câncer de forma não invasiva em um estágio inicial.
O diagnóstico precoce do câncer é fundamental para o tratamento eficaz e a sobrevivência, diz Nari Jang, estudante de pós-graduação que trabalhou no projeto. Portanto, os métodos de rastreamento do câncer devem ser rápidos, fáceis, econômicos e não invasivos. Atualmente, os médicos diagnosticam o câncer de pulmão por exames de imagem ou biópsias, mas esses métodos geralmente não conseguem detectar tumores em seus estágios iniciais. Embora os cães possam ser treinados para farejar câncer humano, eles não são práticos para manter em laboratórios.
Então, Jang e Shin Sik Choi, Ph.D., investigadores principais do projeto, decidiram usar esses vermes nematóides com ~ 1 mm de comprimento, fáceis de cultivar em laboratório e que têm um olfato extraordinário, para desenvolver um teste de diagnóstico de câncer não invasivo.
"As células de câncer de pulmão produzem um conjunto de moléculas de odor diferente do das células normais", diz Choi, da Universidade de Myongji, na Coréia. "É bem conhecido que o nematóide do solo, C. elegans, é atraído ou repelido por certos odores, então tivemos a ideia de que este poderia ser usado para detectar câncer de pulmão". Os pesquisadores colocaram nematóides em placas de Petri e adicionaram gotas de urina humana, observando que os vermes rastejavam preferencialmente em direção a amostras de urina de pacientes com câncer.
Jang e Choi queriam fazer um teste preciso e fácil de medir. Então, a equipe fez um chip de elastômero de polidimetilsiloxano que tinha uma câmara em cada extremidade conectado por canais a uma câmara central. Os pesquisadores colocaram o chip em uma placa de ágar. Em uma extremidade do chip, eles adicionaram uma gota de meio de cultura de células de câncer de pulmão e, na outra extremidade, adicionaram um meio de cultura de fibroblastos pulmonares normais como controle. Em seguida,  colocaram vermes na câmara central e, depois de uma hora, observaram que mais vermes haviam rastejado em direção ao meio de câncer de pulmão do que ao meio de controle.
Com base nesses testes, os pesquisadores estimaram que o dispositivo era cerca de 70% eficaz na detecção de células cancerosas em meio de cultura celular diluído. Eles esperam aumentar a precisão e a sensibilidade do método usando vermes que foram previamente expostos a meio de células cancerígenas e, portanto, têm uma "memória" das moléculas de odor específicas do câncer. Uma vez que a equipe otimizou o "worm-on-a-chip" para detectar células de câncer de pulmão em cultura, eles planejam passar a testar urina, saliva ou até mesmo respiração exalada de pessoas.
Em outros estudos usando o "worm-on-a-chip", os pesquisadores identificaram as moléculas odoríferas específicas que atraem o C. elegans para células de câncer de pulmão, incluindo um composto orgânico volátil chamado 2-etil-1-hexanol, que tem um aroma floral. "Não sabemos por que C. elegans são atraídos por tecidos de câncer de pulmão ou 2-etil-1-hexanol, mas achamos que os odores são semelhantes aos aromas de seus alimentos favoritos", diz Jang.
Fonte: American Chemical Society

quinta-feira, 28 de abril de 2022

1253 - 15.º Relatório sobre Carcinógenos

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (HHS) divulgou o 15.º Relatório sobre Carcinógenos em 21 de dezembro de 2021. É um documento de saúde pública com base científica e exigido pelo Congresso que o National Toxicology Program (NTP) preparou para o secretário do HHS. Este relatório cumulativo agora inclui 256 substâncias — agentes químicos, físicos e biológicos; misturas; e circunstâncias de exposição – que são conhecidas ou razoavelmente previstas como causadoras de câncer em seres humanos.
Veja abaixo o relatório e sua lista de substâncias. Além disso, confira o Painel de Exploração de Dados, que fornece um detalhamento visual fácil de entender de todas as substâncias listadas no documento e seus cânceres associados.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

1252 - Produtos cosméticos radioativos

O elemento químico rádio foi descoberto em 1898 por Marie e Pierre Curie. Naqueles dias, porém, as pessoas não tinham idéia sobre seus efeitos nocivos. De fato, as pessoas encaravam esse metal luminoso como uma cura médica - algo que, de alguma forma poderia melhorar tudo.
Não demorou muito para que as pessoas começaram a usar o rádio em produtos domésticos, como batom, chocolate (na Alemanha), tônicos e até em relógios. No entanto, logo se descobriu que muitas pessoas que consumiam rádio para aumentar sua vitalidade ou beleza estavam desenvolvendo efeitos colaterais horríveis e permanentes ou morrendo. Isso finalmente fez o público perceber que colocar rádio em tudo não era a resposta.
Em 1938, a Lei de Medicamentos, Cosméticos e Alimentos proibia embalagens enganosas que tornavam o Radithor e outros produtos com rádio (imagem) comercializáveis nos EUA.
http://www.tudoporemail.com.br/content.aspx?emailid=15812&readmore=true
Arquivo
1187 - O Radithor
1210 - "Les Petites Curies"

quinta-feira, 14 de abril de 2022

1251 - Se este título for engraçado, você vai me citar?

Impactos de citação de humor e outras características de títulos de artigos em ecologia e evolução
B. Heard , Chloe A. Cull , Easton R. White
https://doi.org/10.1101/2022.03.18.484880
Resumo
Títulos de artigos científicos desempenham um papel fundamental em sua descoberta, e títulos "bons" engajam e recrutam leitores. Um aspecto particularmente interessante na construção de títulos é o uso do humor, mas pouco se sabe se os títulos engraçados aumentam ou limitam o número de leitores e a citação de artigos. Usamos um painel de avaliadores voluntários para avaliar o humor do título de 2.439 artigos em ecologia e evolução e medimos associações entre pontuações de humor e citações subsequentes (autocitação e citação de outros). Artigos com títulos mais engraçados foram citados com menos frequência, mas isso parece resultar de uma confusão com a importância do artigo. Os dados de autocitação sugerem que os autores dão títulos mais engraçados aos artigos que consideram menos importantes. Após a correção para este fator de confusão, artigos com títulos engraçados apresentam taxas de citação que sugerem que o humor recruta leitores. Também examinamos as associações entre as taxas de citação e várias outras características dos títulos. A inclusão de siglas e nomes taxonômicos foi associada a taxas de citação mais baixas, enquanto frases assertivas e presença de dois pontos, pontos de interrogação e regiões políticas foram associadas a taxas de citação um pouco mais altas. O comprimento do título não teve efeito na citação. Nossos resultados sugerem que os cientistas podem usar a criatividade com títulos sem que seus trabalhos sejam condenados à obscuridade.
Este artigo é um preprint e não foi certificado por revisão por pares.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

1250 - O Índice de Quételet

Foi criado em 1832 pelo matemático e astrônomo belga Adolphe Quételet (1796-1874). Rebatizado de Índice de Massa Corpotal - IMC, em 1972, foi pouco tempo depois adotado pela Organização Mundial de Saúde como um método prático de classificar baixo peso, sobrepeso e obesidade em adultos.
O IMC é calculado dividindo o peso (em quilos) pela altura (em metros) ao quadrado.
Adolphe Quételet é considerado o pai da Antropometria Científica.

quinta-feira, 31 de março de 2022

1249 - Movimento dos olhos durante a ressonância magnética

Neste breve vídeo, você observa os olhos se moverem para a esquerda e para a direita como resultado da contração voluntária dos músculos oculares durante um exame de ressonância magnética.

quinta-feira, 24 de março de 2022

1248 - Imunogenicidade e segurança da vacina da chikungunya

A chikungunya é uma doença infecciosa causada pelo vírus de mesmo nome que pode ser transmitida pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus (mesmos mosquitos que transmitem a dengue e a febre amarela, respectivamente). Os sintomas incluem febre acima de 38,5°C, de início repentino, e dores intensas nas articulações dos pés e mãos, além de dor de cabeça, nos músculos e manchas vermelhas na pele. Cerca de 30% dos casos são assintomáticos.
A circulação do vírus foi identificada no Brasil pela primeira vez em 2014 e ele já está presente em mais de 120 países. Como a transmissão ocorre por mosquitos, é fundamental reforçar as medidas de eliminação dos criadouros de mosquitos nas residências. As recomendações são as mesmas aplicadas à prevenção da dengue.
Imunizante desenvolvido por farmacêutica parceira do Butantan
Os resultados finais do ensaio clínico de fase 3 da vacina contra a chikungunya (VLA1553), desenvolvida em parceria entre o Instituto Butantan e a empresa de biotecnologia franco-austríaca Valneva, mostraram que a imunogenicidade alcançada após a vacinação permaneceu por ao menos seis meses, com manutenção da produção de anticorpos durante esse período em 96,3% dos indivíduos avaliados. Além disso, o imunizante é seguro e causa reações adversas mínimas
Resumo de nota publicada pelo Instituto Butantan em 15/03/2022.
Arquivo Nova Acta


quinta-feira, 17 de março de 2022

1247 - Como as pontas amputadas dos dedos se regeneram

dedo de mamífero
Há muito tempo os cientistas tentam desvendar o mecanismo do processo de regeneração da ponta dos dedos amputados, intuindo que aí estaria a chave para a regeneração completa dos membros lesados como acontece com as salamandras.
Esses anfíbios, ao perderem uma perna ou a ponta da cauda, formam um blastema, um conjunto de células indiferenciadas capaz de recriar todos os tecidos perdidos e criar um membro igual ao que tinham.
Nada parecido jamais foi observado em mamíferos.
Em artigo http://www.nature.com/articles/s41598-019-45521-4 na revista *Scientific Reports*, cientistas brasileiros vinculados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) questionam as expectativas otimistas.
Ao invés da chamada regeneração epimórfica, como a das salamandras, em que até as articulações e a função do membro amputado são restauradas, na ponta dos dedos dos mamíferos ocorre basicamente o crescimento de três tecidos que desempenham essa função naturalmente quando são danificados: unhas, pele e ossos.
Assim, os cientistas mostraram que o processo observável em dedos de mamíferos é muito mais simples do que o esperado.
Por esse motivo, não é um modelo para regeneração de membros.
Vimos que a ponta do dedo é muito mais simples do que o dedo inteiro ou um braço, por exemplo. Não tem músculos, glândulas ou articulações e basicamente tem unha, pele e osso.
Esses três tecidos têm uma capacidade natural de regeneração. Portanto, o crescimento da ponta de um dedo não constitui uma regeneração no sentido estrito da palavra, mas uma sucessão de fenômenos bem conhecidos.
Como qualquer lesão na pele, uma lesão de amputação cura devido à migração dos queratinócitos, as células da pele que produzem a queratina.
A unha parcialmente cortada retoma o seu crescimento por ser dotada de um grande número de células-tronco que induzem esse fenômeno ao longo da vida do organismo.
Porém, o crescimento mais importante nesse processo é o do tecido ósseo, que ocorre naturalmente quando se sofre uma fratura, por exemplo. Esse crescimento ocorre graças às chamadas células osteoprogenitoras.
Cientistas já haviam demonstrado que a unha é essencial para o crescimento ósseo após a amputação dos dedos do rato, por induzir o chamado crescimento distal na forma pontiaguda característica das falanges distais, as pontas dos dedos.

quinta-feira, 10 de março de 2022

1246 - Projeto sueco para apanhar bitucas de cigarros

Aproveitando a inteligência dos corvos, a empresa espera reduzir os custos associados à limpeza das bitucas de cigarros nas ruas da Suécia.
bi.tu.ca = bagana, beata, guimba, ponta de cigarro ou charuto
MUNDO AO MINUTO, 01/02/22 - Preocupada com o lixo no chão, uma startup na Suécia está a contar com um aliado improvável na luta contra o lixo do cigarro: o corvo.
O método é simples: o corvo recebe comida através de um computador por cada bituca depositada num repositório.
O projeto-piloto é da Corvid Cleaning, empresa fundada por Christian Günther-Hanssen, e tem sido implementado numa vila próxima de Estocolmo, Södertälje.
"São pássaros selvagens trabalhando voluntariamente", explicou o empresário sueco ao jornal The Guardian.
Os corvos foram a espécie ornitológica escolhida porque são as aves mais inteligentes do mundo animal. Um estudo citado pelo The Guardian afirma que os corvos da Nova Caledônia têm um raciocínio comparável ao de uma criança humana com sete anos.
"São mais fáceis de ensinar e há uma probabilidade elevada de eles se ensinarem uns aos outros. Ao mesmo tempo, há um risco reduzido de comer lixo por engano", garante o empresário.
Günther-Hanssen explicou que o seu método poderá poupar à cidade 75% dos custos associados à recolha de bitucas na cidade. Segundo os dados da Fundação Keep Sweden Tidy, caem nas ruas suecas mais de mil milhões de bitucas de cigarro por ano.
"O custo estimado por bituca apanhada do chão ronda os 80 öre por cigarro (o troco da coroa sueca, equivalente a menos de um centavo), às vezes chegando às duas coroas suecas (cerca de 5 centavos). Se o corvo apanhar a bituca, isto custaria talvez 20 öre por bituca de cigarro. A poupança para o município depende de quantos cigarros o corvo apanhar", explica.

quinta-feira, 3 de março de 2022

1245 - Os efeitos maravilhosos da nova inoculação

O criador da primeira vacina, contra a varíola, foi Edward Jenner. Naquela época, as pessoas tinham pavor da vacina porque corria o boato de que alguns vacinados haviam se transformado por inteiro em gado leiteiro, em outros apareceram chifres e, nos casos menos dramáticos, um rabo havia crescido.
O britânico James Gillray ilustrou os “efeitos adversos da vacina” numa gravura satírica:
Gillray, 1802. Acervo da Biblioteca Nacional de Medicina (Bethesda)
Resumo:
Em uma sala lotada, um médico (Jenner) se prepara para vacinar uma jovem sentada em uma cadeira; a cena é um caos, com vários ex-pacientes demonstrando os efeitos adversos da vacina com vacas brotando de várias partes de seus corpos.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

1244 - Hormônio induzido por exercício pode atenuar o Alzheimer

Por: Lucas Rocha (IOC/Fiocruz)
Um hormônio liberado pelos músculos durante o exercício físico pode ser a chave para a reversão das falhas na memória causadas pelo Alzheimer. A doença neurodegenerativa não tem cura e leva ao comprometimento progressivo das atividades e a uma variedade de sintomas neuropsiquiátricos e alterações comportamentais. Testes com camundongos mostraram que a irisina melhora a comunicação entre os neurônios, preservando as sinapses. O hormônio também impede que toxinas responsáveis pelas alterações neurodegenerativas, que levam ao desenvolvimento da doença, se liguem aos neurônios. "Descobrimos que a irisina promove, ainda, alterações químicas dentro dos neurônios que protegem o cérebro contra a perda da capacidade de armazenar informações e também ajuda a restaurar a memória perdida com o avanço da doença", ressaltou o pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Rudimar Luiz Frozza, um dos autores do estudo. A pesquisa liderada por Fernanda De Felice e Sérgio Ferreira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conta com a participação de outras instituições brasileiras, além de cientistas do Canadá e Estados Unidos. Os achados foram publicados no periódico científico Nature Medicine.
Siga lendo este artigo no Portal Fiocruz.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

1243 - Uma epidemia de joanetes

Um estudo pioneiro publicado no International Journal of Paleopathology demonstrou que grande parte da população inglesa sofria de outra praga - uma praga de joanetes, provavelmente causada por uma tendência ridícula da moda medieval.
O joanete, conhecido pela medicina como "hálux valgo", é uma deformidade da articulação que conecta o dedão do pé ao resto do pé. É doloroso e pode causar outros problemas, incluindo equilíbrio deficiente. A condição está associada ao uso de calçados constritivos por um longo período de tempo, bem como a fatores genéticos. Hoje, muitas vezes é causada pelo uso de sapatos de salto alto.
Na Idade Média, os ingleses não ligavam tanto para sapatos de salto alto, mas havia entre eles uma certa tendência da moda em direção aos sapatos com bico longo e pontiagudo, chamados de "poulaines" ou "crakows" por seu suposto local de origem, Cracóvia, Polônia.
Mas, apenas saber que as pessoas naquela época faziam escolhas erradas na moda não prova que elas sofreram por isso. É aí que entrou em ação desenterrar velhos esqueletos (n = 177) para olhar seus pés.
Para saber o quão ruim era a epidemia de joanetes, os pesquisadores analisaram quatro cemitérios dentro e ao redor de Cambridge. Os enterrados no cemitério do mosteiro foram os mais afetados. Quase metade, 43 por cento, dos restos lá encontrados tinham joanetes.
O cemitério rural teve uma taxa de ocorrências muito menor, apenas três por cento, sugerindo que esses camponeses conseguiram evitar pelo menos uma praga. No geral, dezoito por cento dos indivíduos examinados tinham joanetes.
(https://www.facebook.com/pe.tornozelo/photos/1819886718171347)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

1242 - A máscara facial inteligente

A invenção, detalhada em 10 de janeiro na revista Nature Communications, notifica quando os limites de CO2 foram ultrapassados por meio de um alerta via smartphone. O usuário sabe assim quando reinalar o gás passa a ser prejudicial.
A reabsorção que resulta em concentração de CO2 maior do que a atmosférica (0,04% a 0,1%) gera mal-estar, dores de cabeça, fadiga, falta de ar, tontura, e sudorese, causando também aumento da frequência cardíaca, fraqueza muscular e sonolência. O estudo estima que isso possa ocorrer a partir de qualquer período de tempo usando uma PFF2 convencional.
http://twitter.com/revistagalileu/status/1490067713271611394
Resumo
O uso de máscaras faciais pela população em geral é recomendado em todo o mundo para evitar a propagação do SARS-CoV-2. Apesar das evidências a favor das máscaras faciais para reduzir a transmissão comunitária, também há consenso sobre os potenciais efeitos adversos de seu uso prolongado, causados ​​principalmente pela reinalação de CO2 . Aqui relatamos o desenvolvimento de uma plataforma de gasosodeterminação de CO2 em tempo real dentro de máscaras FFP2. O sistema consiste em um sensor optoquímico combinado com um tag flexível, sem bateria, habilitado para campo próximo com resolução e limite de detecção de 103 e 140 ppm respectivamente, e vida útil do sensor de 8 h, que é comparável ao recomenda aos tempos de uso da máscara FFP2. Incluímos um aplicativo de smartphone personalizado para alimentação sem fio, processamento de dados, gerenciamento de alertas, exibição e compartilhamento de resultados. Por meio de testes de desempenho durante a atividade diária e monitoramento de exercícios, demonstramos sua utilidade para avaliação de saúde não invasiva e sua potencial aplicabilidade para pesquisas e diagnósticos pré-clínicos.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

1241 - Síndrome vasovagal

A síndrome vasovagal é bastante comum, afetando entre 30 e 40% da população alguma vez na vida, segundo diferentes pesquisas. Apesar do nome complicado, não se trata de um problema de saúde complexo — e tampouco chega a configurar uma doença, na avaliação do cardiologista Roberto Kalil, presidente do Conselho Diretor do InCor (Instituto do Coração - HCFMUSP) e diretor geral do Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês.
O médico diz que a síndrome surge com a queda momentânea da pressão arterial, o que reduz a circulação de sangue no cérebro e pode levar também à queda dos batimentos cardíacos. O nome vem do nervo vago, que ajuda justamente a fazer a regulação entre a pressão arterial e os batimentos cardíacos. Uma pessoa pode ter episódios da síndrome vasovagal rotineiramente, ou apenas em algum período da vida — causados por estresse, ambientes quentes, jejum, entre outros.
"Síndrome é um conjunto de sintomas. Dentro da síndrome vasovagal, há vários tipos de apresentação. Um deles é a síncope — sinônimo de desmaio", resume Kalil. Outros sintomas são tontura, náuseas e palidez.
"A orientação é deitar, porque a pressão arterial é normalizada. Não adianta lutar contra a sensação de desmaio."
Apesar de não representar por si só um grande risco para a saúde, a síndrome e os desmaios decorrentes podem machucar, por exemplo devido a uma queda. Há também pessoas que têm síndrome vasovagal severa, com sintomas mais constantes e desencadeados por movimentos fortuitos, como uma virada rápida de pescoço ou o reflexo da tosse.
verywellHealth
Segundo Kalil, o problema pode ser diagnosticado pelo teste chamado de tilt test, e controlado por exercícios e até remédios — apesar de não existir um tratamento específico para a síndrome.
Em 2007, pesquisadores da Itália publicaram um estudo buscando justamente responder se a síndrome vasovagal configura uma doença, e a resposta deles foi não. Eles argumentaram que desmaios e sintomas associados ocorrem com boa parte das pessoas ao longo da vida, muitas vezes como episódios isolados; e frequentemente as pessoas acometidas têm indicadores normais de pressão arterial.
Esses casos pontuais, porém, devem ser diferenciados de quadros mais complexos em que também pode haver desmaios — estes causados não por calor ou estresse, mas sim por doenças neurológicas e cardiovasculares, mais frequentes ao envelhecer.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

1240 - "Já tive covid-19, preciso vacinar?" Esse estudo diz que sim

Novo estudo demonstra efetividade das vacinas anticovídicas CoronaVac, AstraZeneca, Janssen e Pfizer em pessoas com história de infecção prévia pelo SARS-CoV-2 no Brasil. O trabalho, publicado no servidor de pré-impressão MedRxiv em 27 de dezembro de 2021, ainda não foi revisado por pares. ~ Clarinha Glock (21/01/2022), Medscape
“Este provavelmente é o estudo mais completo até o momento em relação à efetividade vacinal em indivíduos previamente infectados. Outros estudos mostraram algum benefício da vacinação em pessoas previamente infectadas, porém, eram limitados por tamanho amostral, representatividade e, em geral, somente avaliavam um tipo de vacina”, disse um dos autores da pesquisa, o Dr. Otavio Tavares Ranzani, médico intensivista e epidemiologista da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) e do Instituto de Salud Global de Barcelona (ISGlobal), na Espanha.
Para realizar a análise, os pesquisadores consultaram bancos de dados nacionais com informações sobre a vigilância de casos, os testes laboratoriais e a vacinação no Brasil. No estudo, a equipe selecionou indivíduos que tiveram covid-19 confirmada por meio de teste de reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa (RT-PCR, sigla do inglês Reverse Transcription Time Polymerase Chain Reaction) e, dentre estes, aqueles que tiveram covid-19 confirmada durante o período do estudo.
“Assim, construímos um estudo caso-controle e teste negativo. Estimamos a razão de chances de alguém vacinado ter um teste RT-PCR positivo em comparação com alguém não vacinado e conseguimos estimar a efetividade da vacina”, explicou o Dr. Otavio. “Tomamos o cuidado de evitar falso-negativos”, acrescentou o pesquisador.
No total, foram avaliados 22.565 indivíduos acima de 18 anos que tiveram dois testes RT-PCR positivos (reinfecção) e 68.000 que tiveram teste positivo e depois negativo, entre fevereiro e novembro de 2021.
Os pesquisadores constataram que, 14 dias após a finalização do esquema vacinal, a efetividade das vacinas anticovídicas CoronaVac, AstraZeneca, Janssen e Pfizer contra doença sintomática em pacientes previamente infectados pelo SARS-CoV-2 foi de 37,5%, 53,4%, 35,8% e 63,7%, respectivamente. Em relação a hospitalização e morte, a efetividade das vacinas foi de 82,2%, 90,8%, 87,7% e 59,2%, respectivamente.
Segundo o infectologista Dr. Julio Croda, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e um dos coordenadores do trabalho em tela, os resultados indicam a necessidade de reforço das recomendações de vacinação, contrapondo o discurso de alguns países de que, em caso de infecção prévia bastaria uma dose da vacina anticovídica – ou até mesmo nenhuma. “Neste momento, em que inclusive muitos profissionais de saúde estão adoecendo, é preciso garantir um nível de proteção elevado”, afirmou o Dr. Julio.
O Dr. Albert Icksang Ko, médico que participou da pesquisa em colaboração com o Instituto Gonçalo Muniz, da Fiocruz em Salvador, e atua no Departamento de Epidemiologia de Doenças Microbianas da Yale School of Public Health, acredita que este estudo é um recurso importante para direcionar as políticas de saúde em todo o mundo. Além disso, ele considera fundamental para reforçar que, se houver um paciente infectado, ele deve receber a vacinação. “Aqui nos Estados Unidos ainda há muitas pessoas que pensam que não precisam da vacina, e esta informação não baseada cientificamente é promovida por governos, como o da Flórida”, observou.
Nas conclusões, os pesquisadores salientaram que mais de 40% da população mundial ainda não recebeu nem uma dose de vacina anticovídica e uma proporção substancial já foi infectada pelo SARS-CoV-2, portanto, “garantir acesso à vacina a indivíduos com infecção anterior pode ser particularmente importante em meio ao início de relatórios da variante Ômicron que sugerem que a imunidade conferida por infecção anterior é reduzida”.
“Nós não avaliamos a variante Ômicron, mas mostramos que, mesmo quem já teve infecção pelo SARS-CoV-2 e tem imunidade decorrente da infecção, se beneficia muito em ganho adicional de proteção ao tomar as duas doses da vacina, e isso deve ajudar na proteção contra a Ômicron”, enfatizou o Dr. Otavio.
Participaram do estudo pesquisadores do Instituto Gonçalo Moniz (Fiocruz Bahia); do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia); da Fiocruz Brasília e da Fiocruz Mato Grosso do Sul; da Universidade Federal da Bahia; da Stanford University, do Instituto de Salud Global de Barcelona (ISGlobal); do Hospital das Clínicas de Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; da London School of Hygiene and Tropical Medicine; da Universidade Federal de Ouro Preto; da Universidade da Flórida; da Yale School of Public Health; da Universidade de Brasília; da Emory University; da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; e da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
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Imunidade turbinada: 
estudo mostra que infecção por Covid-19 complementa vacina e cria superproteção
extra.globo.com
Micrografia eletrônica de varredura colorida mostra célula fortemente atacada pelo SARS-Cov-2 (em vermelho) Foto: NIH/Divulgação

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

1239 - Mulheres na ciência: elas estão virando o jogo

Dra. Aline Serfaty; Dr. Sivan Mauer
Em 2005 o economista norte-americano Lawrence Summers, à época servindo como reitor da Harvard University, disse publicamente que a pouca representatividade das mulheres na ciência e na engenharia era mais uma questão de falta de aptidão do que de discriminação de gênero. A opinião, que gerou um problema brutal de relações públicas em uma das mais prestigiosas instituições de ensino do planeta e terminou por influenciar o pedido de demissão de Summers do cargo, soa como uma ofensa à capacidade das mulheres, mas é a desculpa mais usada para desmerecer minorias.
De acordo com o relatório A jornada do pesquisador pela lente de gênero, publicado pela Elsevier em 2020, a participação de mulheres, nos mais diversos campos da ciência, oscila entre 20% e 49% nos 15 países estudados para compor o relatório. O Brasil está entre os pesquisados, e figura entre os países mais equânimes na proporção entre homens e mulheres na autoria de artigos científicos, com 0,8 mulher por homem – um desempenho superior ao do Reino Unido (0,6), dos Estados Unidos e da Alemanha (ambos com 0,5).
Neste episódio do Conversa de Médico (Medscape), a Dra. Aline Serfaty, radiologista, e o Dr. Sivan Mauer, psiquiatra, apresentam os números mais atualizados sobre como essa falácia perpetuada para a manutenção do status quo está cada dia mais longe de corresponder à verdade. Discutindo como a desigualdade de gênero na ciência acarreta redução na criatividade e no potencial de inovação de um país, a dupla de médicos elenca algumas questões intrínsecas os desafios a serem superados para igualar a representatividade de homens e mulheres na formação e na produção científica brasileira.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

1238 - A pentadactilia humana

Correndo o risco de espantar: quando foi a última vez que você realmente olhou para suas mãos? 
(Uau, cara.) Nós as usamos todos os momentos para inúmeras tarefas, mas elas frequentemente escapam de nossa atenção. 
Então, por que elas são do jeito que são?
Um dos fatos básicos sobre nossas mãos é que cada uma possui quatro dedos e um polegar: cinco dedos no total.
Mas por que não quatro ou seis? Os cartunistas costumam reduzir o número de dedos que desenham por uma questão de conveniência - basta olhar para Os Simpsons - mas parece que, pelo menos para os seres humanos, a evolução não teve a mesma prioridade.
Cinco dedos para todos
A pentadactilia humana (o termo técnico para "possuir cinco dígitos") não é única. Na verdade, o ancestral de todos os tetrápodes modernos - mamíferos, répteis, anfíbios e pássaros - tinha cinco dígitos em cada um de seus quatro membros no período Devoniano, de 420 a 360 milhões de anos atrás. Mesmo os morcegos e as baleias têm os restos ósseos de cinco dedos em suas asas e nadadeiras, respectivamente, embora não precisem mais de mãos adequadas.

Nadadeira de baleia e mão humana: comparação.
Basicamente, temos cinco dedos porque nossos ancestrais tinham.
Por que esse tetrápode ancestral tinha especificamente cinco dedos ainda é um mistério, de acordo com o Dr. Justin Adams, paleontólogo da Monash University.
"Sabemos que no Devoniano havia muitos tetrápodes [parecidos com peixes] com diferentes números de dedos - cinco, sete, acredito que até treze - mas, no final do período, tínhamos apenas tetrápodes pentadáctilos", diz ele.
Cinco dedos eram melhores do que qualquer outro número?
Qualquer hipótese "seria altamente especulativa sem muitos dados sobre os tipos de pressões seletivas que os organismos enfrentavam na época", diz Adams.
"Eu erraria por precaução e sugeriria que simplesmente não sabemos 100% o 'por que' ou o 'como' do estreitamento da morfologia da mão para cinco dedos no Devoniano”.
Perdendo dedos
Curiosamente, muitos tetrápodes perderam alguns dos cinco, como os cavalos, cujos cascos são grandes e de um só dedo, e gatos e cachorros, que têm cinco dedos nas patas dianteiras, mas apenas quatro nas traseiras. Não é assim em primatas, onde a destreza de cinco dedos é útil para pegar coisas, e nos quais perder um dedo seria prejudicial.
Mas se cinco dedos são bons, então um maior número deles seria ainda melhor, certo?
Acontece que não é fácil evoluir para mais: embora dedos ou polegares extras possam ser encontrados nas mãos de pessoas com a condição congênita de polidactilia (literalmente "muitos dedos"), eles nunca estão funcionando adequadamente. Na verdade, "nunca houve um único caso de adição de um sexto dedo" nos tetrápodes modernos, diz Adams.
"Você precisaria ter mudanças estruturais na mão, bem como nos músculos do antebraço e nos ossos do pulso, para fazer um 6º dígito funcionar". E isso provavelmente tem sido muito difícil para a evolução se preocupar.
Polegares especiais
Embora nós, humanos, possamos ter um número "padrão" de dedos, o que nos diferencia dos outros tetrápodes são nossos polegares, uma reviravolta particularmente interessante na história evolutiva de nossas mãos.
"Temos um músculo específico que flexiona o primeiro dedo: o flexor longo do polegar", diz Adams. "Quando ocorre em macacos, costuma estar associado a outros músculos flexíveis dos dedos, o que significa que, embora os humanos possam flexionar os polegares com força e fazer isso independentemente de seus outros dedos, outros macacos têm uma capacidade extremamente limitada para fazer isso".
Ask evolution: Why do we have five fingers?
Jack Scanlan. Trad.: PGCS

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

1237 - O método de Abraham Wald

Condutas baseadas em evidências, aviação militar e a importância de fazer as perguntas certas
Dr. Bernardo Schubsky *, Medscape
Como profissionais de saúde e estudantes, estamos constantemente nos deparando com novas situações e desafios, mas como podemos ter a certeza de estarmos mantendo vivo o nosso espírito inquisitivo? O caminho mais fácil logicamente é presumir que a informação que já temos seja exata. Ou simplesmente aceitar que o que está sendo dito pelos nossos professores e colegas é a melhor resposta.
Essa postura pode levar ao terrível viés de confirmação, por meio do qual repetimos um comportamento apenas por força do hábito, sem nunca voltar ao início da questão. Mas, claro, essa não é a melhor maneira de consolidar nossas memórias remotas – se formos estudantes – nem de assegurar um exercício profissional eficaz baseado em evidências – se formos médicos atuantes.
E então você provavelmente está se perguntando: O que a saúde tem a ver com aviação militar?
Aí vamos nós...
Durante a Segunda Guerra Mundial, o matemático Abraham Wald foi encarregado pela Real Força Aérea britânica (RAF, do inglês Real Air Force) de analisar a distribuição do padrão das marcas de tiros nos aviões que retornavam das zonas de combate e escolher as áreas mais atingidas para determinar o melhor posicionamento da blindagem. Como o avião precisava ser o mais leve possível, o objetivo era blindar somente as áreas mais atingidas, para aumentar as chances de sobrevivência dos pilotos.
Mas Abraham percebeu que a pergunta estava sendo feita de modo radicalmente equivocado, e aquilo que ele fora incumbido de analisar não estava correto. Para começar, os aviões nos quais ele estava investigando o padrão de distribuição das marcas de bala eram os que tinham voltado, não os que foram abatidos. Traçando um paralelo com a saúde, ele não foi solicitado a avaliar o grupo que precisava de tratamento, foi-lhe pedido para examinar o grupo que não precisava da intervenção. Hmmm, isso é intrigante...
A sua abordagem criativa para resolver o problema foi voltar ao início do problema: Por que a RAF solicitou a análise dos padrões das marcas de bala?
Abraham reformulou a pergunta objetivamente para: “Como a integridade do avião pode ser reforçada sem termos acesso aos aviões abatidos?"
A seguir ele analisou o padrão de “menos marcas versus ausência de marcas” e percebeu que a maioria das marcas se direcionava às partes estruturais dos aviões, como o tanque de combustível ou os componentes do motor.
O método de Abraham Wald voltou a ser usado nas guerras seguintes, tornando-se o método convencional de análise da integridade das aeronaves.
A lição é que devemos manter sempre viva uma faísca de questionamento, e não nos darmos por satisfeitos com a explicação mais imediata para cada nova questão que enfrentamos. Devemos permanecer ávidos para entender o porquê antes do como durante nossas aulas. E mesmo que os dados apresentados sejam as melhores informações disponíveis, ao mudar de atitude, trocando a nossa mentalidade do aprendizado passivo para o ativo, já teremos dado um enorme salto em termos de compreensão e consolidação dos nossos conhecimentos.
Ao retirar nosso cérebro da zona de conforto, nos permitimos fazer novas associações e armazenar as informações na nossa memória remota. E, futuramente, se nos confrontarmos com um ponto de vista oposto, será mais fácil recordar a informação anterior e compará-la com a nova, formulando novas questões e dando sequência ao ciclo virtuoso do aprendizado.
A sugestão prática aqui é sempre ir às aulas e às discussões clínicas preparando-se com um pouco de informação e muitas perguntas. Durante a aula, a maioria das perguntas será respondida naturalmente, solidificando nossas associações mentais. As questões que não foram abordadas são as que podem nos levar ao próximo nível e nos permitir avançar nos nossos estudos.
* O Dr. Bernardo Schubsky é formado em medicina, tem mestrado em educação médica e está fazendo doutorado na mesma área.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

1236 - A corrida para sequenciar o genoma humano

RANKER - Em 1998, o astuto cientista Craig Venter fundou o Institute for Genomic Research (mais tarde denominado Celera Genomics). Por que Craig Venter era assim considerado? Porque ele fundou o Instituto depois de contestar publicamente o Projeto Genoma Humano, financiado pelo governo, que ele achava que estava demorando muito para fazer o trabalho. Isso desencadeou uma disputa entre Venter e Francis Collins, chefe do Projeto Genoma Humano. Entre uma série de "diferenças de opinião" nos campos do genoma em guerra estava a premissa de que todas as informações mapeadas deveriam ser gratuitas e disponíveis ao público. [1]
O Instituto privado de Venter se opôs a esse princípio fundamental do Projeto de Collins. Os dois grupos mapearam febrilmente por alguns anos, e a corrida para sequenciar o genoma terminou amigavelmente - com ambos os lados anunciando a conclusão de seus rascunhos da sequência do genoma humano em 26 de junho de 2000. Posteriormente, o então presidente Bill Clinton e o primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair declararam que a corrida havia acabado e que "ambos os lados haviam vencido". [2]
Foto: Wikimedia Commons
Notas (extraídas de Why was there a race to sequence the human genome?)
[1] Craig sentiu que o Projeto Genoma Humano estava demorando muito, provando ser muito caro e que estava sendo prejudicado por discussões não essenciais, como quem levaria o crédito por ele. Ao formar sua própria equipe de sequenciamento do genoma humano, ele queria fazer o sequenciamento o mais rápido possível, usando métodos mais rápidos, mas talvez menos precisos, para acelerar a busca por curas de doenças. Craig Venter pretendia sequenciar e montar todo o genoma humano até 2001, e apenas disponibilizar as informações para clientes pagantes. Ele também planejava solicitar patentes preliminares em mais de 6.000 genes e patentes completas em algumas centenas de genes antes de liberar sua sequência.
[2] Bill Clinton e Tony Blair deram seu selo de aprovação ao comparecerem a conferências de imprensa em cada lado do Atlântico. Em 2000, a Celera e o Projeto Genoma Humano puderam publicar seus rascunhos de sequências do genoma humano. No entanto, em janeiro de 2002, Venter deixou o cargo de presidente da Celera Genomics à medida que esta avançava para o domínio farmacêutico. Enquanto isso, o Projeto Genoma Humano continuou seu trabalho, resultando no lançamento de sua sequência padrão ouro em 2003. Algumas pessoas pensam que foi por causa da competição da Celera Genomics que o esforço público para sequenciar o genoma humano se acelerou. No entanto, muitos discordam, pensando que o Projeto Genoma Humano sempre teve o empenho e a dedicação necessários para terminar antes do prazo e dentro do orçamento.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

1235 - Os tipos de vírus da influenza

Existem quatro tipos de vírus da influenza: são os tipos A, B, C e D. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, os vírus A e B são os causadores de epidemias sazonais de gripe.
Conforme a pasta, o tipo influenza A infecta seres humanos e várias espécies de animais, como suínos, cavalos, mamíferos marinhos e aves. Dentre os seus subtipos, estão A H1N1 e A H3N2.
O tipo B infecta exclusivamente os seres humanos. Os vírus circulantes B podem ser divididos em 2 principais grupos (linhagens), denominados linhagens B/ Yamagata e B/ Victoria. Os vírus da gripe B não são classificados em subtipos.
O tipo C infecta humanos e suínos. É detectado com muito menos frequência e geralmente causa infecções leves, apresentando implicações menos significativas à saúde pública, não estando relacionado com epidemias.
O influenza D, conforme o Ministério da Saúde, foi identificado nos Estados Unidos, em 2011, em suínos e bovinos, "não sendo conhecido por infectar ou causar a doença em seres humanos".

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

1234 - Alergia a água

Tomar banho, ir à praia ou pegar chuva de surpresa pode ser um desafio para os pacientes com a raríssima urticária aquagênica. O contato com a água causa sinais e sintomas semelhantes aos de tocar urtigas; formam-se pápulas brancas que ardem. Os deflagradores da urticária por água também não são claros, embora especialistas discutam vários mecanismos possíveis.
Uma teoria é que a interação entre a água e um componente da epiderme cria uma substância tóxica que desencadeia os efeitos. No entanto, também foram sugeridos como agentes causais os antígenos hidrossolúveis que penetram na pele e provocam liberação de histamina.
A urticária aquagênica é mais frequente nas mulheres e geralmente ocorre durante ou logo após a puberdade. O tratamento com anti-histamínicos pode aliviar os sintomas.
Medscape
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Um relatório de dois casos:
Resumo. A urticária aquagênica é uma forma rara de urticária física, em que o contato com a água origina pápulas. Um homem de 19 anos e um menino de 4 anos queixaram-se de episódios recorrentes de urticária. A urticária aparecia durante o banho na ducha, na chuva ou na piscina. Pequenas pápulas do tamanho circundadas por eritema de tamanhos variáveis foram provocadas pelo contato com água na face, pescoço e tronco, independentemente de sua temperatura ou origem. Os resultados do exame físico e da avaliação laboratorial inicial estavam dentro dos limites normais. O tratamento do homem de 19 anos com 180 mg de fexofenadina por dia teve sucesso na prevenção de pápulas e eritema. O tratamento com 5 ml de xarope de cetotifeno duas vezes ao dia resultou na melhora dos sintomas no menino de 4 anos.
Aquagenic Urticaria: A Report of Two Cases, Ann Dermatol Vol. 23, Suppl. 3, 2011
https://doi.org/10.5021/ad.2011.23.S3.S371

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

1233 - Sem tempo para morrer: Uma análise profunda da exposição de James Bond a agentes infeciosos

No time to die: An in-depth analysis of James Bond's exposure to infectious agents
doi.org/10.1016/j.tmaid.2021.102175
Considere onde James Bond, agente 007, esteve. Sua ocupação como agente secreto do MI6 o leva a locais exóticos em todo o mundo, muitas vezes em um piscar de olhos. Nós, plebeus, sabemos que as viagens internacionais exigem um planejamento extenso, muitas vezes incluindo exames de saúde e vacinas para obter vistos e dicas para evitar doenças. Bond não tem tempo para nada disso.
Artigo científico na revista Travel Medicine and Infectious Disease analisa em profundidade os perigos que Bond enfrenta ao viajar pelo mundo, matar pessoas e levar mulheres para a cama. As evidências são recolhidas a partir de 25 filmes produzidos pela Eon de 1962 a 2021, nos quais Bond vai a 47 países identificáveis em 86 viagens. Eles consideram segurança alimentar, saúde sexual, doenças transmitidas pelo ar, doenças transmitidas por artrópodes e doenças tropicais. De sua introdução:
Descobrimos uma atividade sexual acima da média, muitas vezes sem tempo suficiente para um diálogo na história sexual, com uma mortalidade notavelmente alta entre os parceiros sexuais de Bond (27,1; intervalo de confiança de 95% 16,4–40,3). Dado o quão inoportuno um ataque de diarreia seria no meio de uma ação para salvar o mundo, é impressionante que Bond seja visto lavando as mãos apenas em duas ocasiões, apesar das inúmeras exposições a patógenos de origem alimentar. Nossa hipótese é que sua coragem imprudente, às vezes provocando propositadamente situações de risco de vida, pode até ser uma consequência da toxoplasmose (*). A abordagem de Bond em relação às doenças transmitidas por vetores e às doenças tropicais negligenciadas é errática, às vezes seguindo os conselhos de viagem ao pé da letra, mas, na maioria das vezes, permanecendo do lado da completa ignorância. Dado o tempo limitado que Bond recebe para se preparar para as missões, pedimos urgentemente ao seu empregador MI6 que leve a sério a sua responsabilidade. Vive-se apenas uma vez.
(*) Em camundongos, a toxoplasmose foi associada à perda de medo de gatos [20]; uma manipulação inteligente pelo parasita para aumentar a probabilidade de transmissão por ingestão . Embora especulativa, a toxoplasmose pode explicar a coragem muitas vezes temerária de Bond em face do perigo que ameaça a vida.

Os três autores do artigo "perderam suas horas noturnas examinando os filmes", que totalizaram 3113 minutos por autor. Você pode ler o artigo completo em ScienceDirect.
Poderá também gostar de ver:

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

1232 - Hospitais de alta complexidade do Estado do Ceará

O Governo do Ceará entregou na quinta-feira passada (25/11), o Hospital Regional do Vale do Jaguaribe (HRVJ), em Limoeiro do Norte. Com essa entrega, proporciona à população de todas as cinco regiões de saúde o acesso a hospitais regionais de alta complexidade. A inauguração contou com a presença do governador Camilo Santana, da vice-governadora Izolda Cela, e do secretário da Saúde do Estado, Marcos Gadelha. A nova unidade atenderá, preferencialmente, 550 mil cearenses dos 20 municípios da região, e é um marco para a descentralização da assistência de qualidade e para a consolidação da Plataforma de Modernização da Saúde.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

1231 - Fleming salvou Churchill?

... devemos ter dias santos para comemorar as grandes descobertas que foram feitas para toda a humanidade, e talvez para sempre - ou pelo tempo que nos resta. A natureza ... é um filho pródigo da dor. Gostaria de encontrar um dia em que possamos feriar, um dia de júbilo em que possamos celebrar a boa Santa Anestesia e o casto e puro Santo Antisséptico. ... Devo ser obrigado a celebrar, entre outros, a Santa Penicilina ...
- Discurso de Winston Churchil no Guildhall, Londres (10 de setembro de 1947)
A história de que Alexander Fleming (ou Alex e seu pai Hugh) salvou duas vezes a vida de Churchill, por mais charmosa que seja, certamente é ficção. Essa lenda persistente de Churchill remonta à Segunda Guerra Mundial. Ainda hoje é encontrada em sites sérios, apesar das abundantes evidências contra ela. Frequentemente somos questionados sobre isso, mas as explicações atualmente na web estão incompletas ou imprecisas. Aqui, para registro, está a história completa.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

1230 - O Estudo de Tuskegee, um exemplo de má conduta científica

O Estudo da Sífilis Não Tratada de Tuskegee foi um experimento médico realizado pelo Serviço Público de Saúde dos Estados Unidos em Tuskegee, Alabama, entre 1932 e 1972. O experimento é usado como exemplo de má conduta científica.
Foram usadas 600 homens negros como cobaias em um experimento científico: 399 sifilíticos para observar a progressão natural da sífilis sem o uso de medicamentos e outros 201 indivíduos saudáveis, que serviram como base de comparação em relação aos infectados.
Os doentes envolvidos não foram informados sobre seu diagnóstico e jamais deram seu consentimento de modo a participar da experiência. Eles receberam a informação que eram portadores de "sangue ruim", e que se participassem do programa receberiam tratamento médico gratuito, transporte para a clínica, refeições gratuitas e a cobertura das despesas de funeral. Em 1943, a penicilina passou a ser usada no tratamento da doença, com resultados efetivos e sem os riscos de tratamentos anteriores. Mas os pacientes nunca foram informados.
A partir da década de 50 já havia terapêutica estabelecida para o tratamento de sífilis, mesmo assim todos os indivíduos incluídos no estudo foram mantidos sem tratamento. Todas as instituições de saúde dos EEUU receberam uma lista com o nome dos participantes com o objetivo de evitar que qualquer um deles, mesmo em outra localidade recebesse tratamento. A inadequação do estudo foi seguindo o padrão conhecido como "slippery slope", isto é, uma inadequação leva a outra e o problema vai se agravando de forma crescente. Da omissão do diagnóstico se evoluiu para o não tratamento, e deste para o impedimento de qualquer possibilidade de ajuda aos participantes.
Ao final do experimento Tuskegee, apenas 74 pacientes ainda estavam vivos; outros 25 tinham morrido diretamente de sífilis; 100 morreram de complicações relacionadas com a doença. Adicionalmente, 40 das esposas das cobaias humanas haviam sido infectadas pela doença, e 19 de suas crianças haviam nascido com sífilis congénita.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

1229 - Longevidade humana no século XXI

Pesquisadores da Universidade de Washington sugeriram, através de um novo projeto sobre a longevidade humana, que a expectativa de vida das pessoas poderia alcançar 130 anos em casos raros no século XXI, seguindo uma tendência natural e histórica de aumento de pessoas centenárias nas últimas décadas. [1]
Atualmente, cerca de 500 mil centenários — de 100 a 110 anos — existem pelo planeta, registrando a maior incidência de casos na história. O século XX se destacou, também, pelo surgimento de alguns supercentenários, ou seja, que viveram mais de 110 anos, e apesar de poucos estarem vivos agora, como a japonesa Kane Tanaka (118), seus aparecimentos indicam uma inclinação importante para a comunidade terrestre, visto suas considerações para políticas governamentais e relevância em estudos de saúde e estilo de vida.
"As pessoas são fascinadas pelos extremos da humanidade, seja a ida para a Lua, quão rápido alguém pode correr nas Olimpíadas, ou até mesmo quanto tempo alguém pode viver", diz Michael Pearce, doutorando em estatística e autor principal da pesquisa. "Com este trabalho, quantificamos a probabilidade de que algum indivíduo atinja várias idades extremas neste século."
O estudo utilizou modelagem estatística para examinar os extremos da vida humana e foi fundamentado nos possíveis limites para a chamada "idade máxima relatada na morte", colocando especialistas para discutir sobre as condições de se atingir os patamares de supercentenários. Dessa forma, Pearce e sua equipe questionaram qual a maior idade humana que existirá até o ano de 2100 e, usando a conhecida ferramenta de estatísticas bayesianas, estimaram que uma pessoa poderá viver entre 125 e 132 anos até o final do século.
Após recorrerem à atualização mais recente do Banco de Dados Internacional sobre Longevidade, que rastreia supercentenários [2] de dez países europeus, além do Canadá, Japão e Estados Unidos, as projeções para a idade máxima entre 2020 e 2100 indicaram 100% da probabilidade de que o registro recorde de Jeanne Calment — 122 anos e 164 dias — seja quebrado. [3]
Além disso, há 99% de probabilidade de vida até 124 anos, 68% de até 127 anos e 13% de alguém viver até os 130 anos, porém é "extremamente improvável" que surjam supercentenários de 135 anos.
"Não importa quantos anos eles têm, uma vez que chegam aos 110, eles ainda morrem no mesmo ritmo", conclui Raftery. "Eles superaram todas as várias coisas que a vida joga em você, como doenças. Eles morrem por razões que são um pouco independentes do que afeta os mais jovens. Este é um grupo muito seleto de pessoas muito resistentes."
Referências
[1] A idade humana poderia chegar a 130 anos neste século?, Megacurioso
[2] Wiki/Supercentenários
[3] O limite superior da mortalidade humana (post 1205)

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

1228 - Que é o DOI?

DOI significa Digital Object Identifier, ou seja, Identificador de Objeto Digital. É um padrão para identificação de documentos em redes digitais. Composto por números e letras, é atribuído a um objeto digital para que este seja identificado de forma única e persistente no ambiente Web. O DOI originou-se de uma iniciativa conjunta de três associações comerciais na indústria editorial (International Publishers Association; International Association of Scientific, Technical and Medical Publishers; e Association of American Publishers) como uma estrutura genérica para a gestão de identificação de conteúdos através de redes digitais, considerando a tendência para a convergência digital e a crescente disponibilidade de multimídias (International DOI Foundation, 2014).
doi.org/index.html
Este é o site da International DOI Foundation (IDF), uma organização sem fins lucrativos que é o órgão de governança e gerenciamento para a federação de agências de registro que fornecem serviços e registro de Digital Object Identifier (DOI), e é o registro autoridade para o padrão ISO (ISO 26324) para o sistema DOI. O sistema DOI fornece uma infraestrutura técnica e social para o registro e uso de identificadores interoperáveis ​​persistentes, chamados DOIs, para uso em redes digitais.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

1227 - Visão geral dos minerais

Por Larry E. Johnson, MD, PhD, University of Arkansas for Medical Sciences
Última modificação do conteúdo em maio de 2020
Seis tipos de macrominerais são essenciais ao ser humano:
  • Quatro cátions: sódio, potássio, cálcio e magnésio
  • Dois ânions: cloreto e fósforo
As necessidades diárias variam de 0,3 a 2,0 g. Ossos, músculos, coração e cérebro dependem desses macrominerais. 

As pessoas precisam de nove oligoelementos (microminerais) em quantidades mínimas:
  • Cromo
  • Cobre
  • Flúor
  • Iodo
  • Ferro
  • Manganês
  • Molibdênio
  • Selênio
  • Zinco
Foram determinadas diretrizes dietéticas para oligoelementos (ver tabela Diretrizes para ingestão diária de oligoelementos). Todos os oligoelementos são tóxicos em altos níveis; alguns (arsênio, níquel e cromo) podem ser carcinógenos. Não está claro se o cromo deve ser considerado oligoelemento essencial (obrigatório).
Deficiências de oligoelementos (exceto iodo, ferro e zinco) não costumam ocorrer espontaneamente em adultos com alimentação normal; as crianças são mais vulneráveis porque têm crescimento rápido e ingestão variável. Desequilíbrios de oligoelementos podem resultar de doenças hereditárias (p. ex., hemocromatose, doença de Wilson), hemodiálise, nutrição parenteral, dietas restritivas prescritas para pessoas com deficiências inatas do metabolismo ou vários tipos de dieta populares.
Tabelas

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

1226 - Estranha profissão é a de médico!

O pintor e ilustrador britânico Samuel Luke Fildes (1843 - 1927) perdeu seu primeiro filho, Philip, acometido de febre tifóide, no Natal de 1877. O desvelo do médico que o assistiu deixou em sua memória uma imagem de devoção profissional que inspirou, em 1891, o quadro "The Doctor", ora em pauta. Nela, provavelmente, Samuel retrata seu próprio drama pessoal e homenageia o Dr. Murray que assistiu, impotente, seu filho no leito de morte.
No centro do quadro, em primeiro plano, a luz de um lampião sobre uma mesa ilumina um médico contemplativo e uma criança gravemente enferma, acomodada sobre duas cadeiras. Pela janela da humilde casa, adentram os primeiros raios de sol iluminando o lado esquerdo da face do pai, que repousa a mão nas costas de sua esposa para apoiá-la e confortá-la no momento dramático. A luz ilumina a mãe debruçada em uma mesa revelando seu profundo sofrimento com a grave doença da filha.
Os utensílios sobre os móveis, indicando a preparação de medicamentos, mostram que o médico passou a madrugada ao lado da criança pálida, fraca, largada, gravemente enferma, tentando, em vão, uma terapia eficaz. É impossível apreciar o quadro sem sentir forte emoção diante da força do olhar do médico sobre a pequena paciente e do olhar do pai, colocando suas esperanças no médico.
Trata-se de uma das representações mais tocantes e icônicas da medicina. Em 1892, um professor de medicina escreveu, no British Medical Journal:
"Uma biblioteca de livros feitos em nossa honra não faria o que esta pintura tem feito e fará pela profissão médica, ao tornar os corações de nossos semelhantes aquecidos com confiança e afeto por nós."
Extraído de: "Apreciação Crítica da Obra 'The Doctor' de Luke Fildes", por Dra. Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg, médica e historiadora da Sobrames Ceará e da Academia Cearense de Medicina. Publicada originalmente no Jornal do Médico Digital, de 18 a 23 de outubro de 2020.

O Médico
Dele se pede toda a sensibilidade que um ser humano pode abrigar. Para que entenda a linguagem da dor, da angústia, do medo, da desesperança e do sofrimento.Para que fale com a alma de seus pacientes. Para que transforme tênues fímbrias de esperança no lenho ardente da vontade de viver. De pessoa assim tão rica de sentimentos se pede, paradoxalmente, o mais frio domínio das emoções. Para que um franzir de cenhos ou um arquear de boca não semeiem, no espírito do paciente, dúvidas e opressões. Para que o tremer da mão não imprima, ao bisturi, o erro milimétrico que separa a vida da morte. Para que o marejar dos olhos não o prive da clareza meridiana que se pede ao diagnosticista. Para que o embargo da voz não roube credulidade à sua mensagem de fé.
SEMPRE ME PARECEU DIFÍCIL REUNIR, NUM MESMO INDIVÍDUO, TÃO NOBRE TEXTURA E TÃO RUDE COURAÇA.
Pronunciamento do Dr MARIO RIGATTO na AULA DA SAUDADE da minha turma MEDICINA 74 no Centro de Convenções e publicado em seu livro MÉDICOS e SOCIEDADE. ~ Dra. Ana Nocrato

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

1225 - O risco de fumar na II Guerra Mundial

Fumar nunca foi um hobby saudável. Nenhum médico o recomendaria a alguém. Mas o tenente aviador James Alter, em seu livro de 2011 intitulado "From Campus to Combat", lembra que, naqueles dias, quase todo mundo fumava.

… Considerando o tipo de trabalho que estávamos fazendo, ninguém teria ficado muito preocupado com o câncer de pulmão, mesmo se soubéssemos sobre ele.

O governo dos EUA fornecia cigarros aos militares em números impressionantes durante a Segunda Guerra Mundial. A Philip Morris e outros fornecedores de tabaco dos Estados Unidos relataram enrolar e vender 290 bilhões de cigarros em 1943. Para aliviar o tédio e melhorar o moral dos guerreiros, os cigarros eram o padrão nas caixas de ração K, junto com balas e chicletes. Se os jovens soldados e marinheiros quisessem mais, os cigarros custariam apenas 50 centavos a caixa ou um níquel o maço. Como resultado, o consumo de tabaco disparou durante a guerra.
Naquela época, fumar era uma atividade popular entre as pessoas, e eles fumavam mesmo em lugares que não deveriam, como dentro de aviões de combate. Era um claro risco de incêndio. Afinal, um avião de guerra era uma cápsula frágil de alumínio contendo um conglomerado de coisas que poderiam queimar ou explodir - combustível, fluido hidráulico, óleo, oxigênio, munição. Adicionar um cigarro aceso a essa mistura era perigoso.
Mas, em uma época em que as chances de morrer instantaneamente em uma briga de cães eram muito maiores, fumar, que levava décadas para fazer efeito, era um risco insignificante.
Mais sobre essa história na revista Air and Space.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

1224 - O Horror nos Tempos do Cólera

De acordo com o folclore local, a vila de Nigg, na Escócia, venceu o cólera de uma maneira singularmente direta:
"Em uma parte central do cemitério de Nigg, há uma rude pedra nua, perto da qual o sacristão nunca se aventura a abrir uma cova. Uma apócrifa tradição selvagem conecta a construção dessa pedra com os tempos do cólera na vila. A praga, como diz a história, foi trazida ao local por um navio e movimentava-se lentamente pelo chão, desimpedida de qualquer tipo de contenção, na forma de uma pequena nuvem amarela. O país inteiro estava alarmado e grupos de pessoas foram vistas em todas as eminências, observando com horror ansioso o progresso da pequena nuvem. Eles foram aliviados, no entanto, de seus medos e da praga por um engenhoso homem de Nigg, que, tendo rebido uma grande sacola de linho, moldou-a um pouco à maneira de uma rede de pegar passarinho, aproximou-se cautelosamente da nuvem amarela e, com uma habilidade que não devia nada a uma prática anterior, conseguiu colocá-la na sacola. Envolvendo-a com cuidado, dobra após dobra, e prendendo-a com alfinete após alfinete e, enquanto o linho mudava gradualmente, como se estivesse sob as mãos de um tintureiro, de branco para amarelo, ele destinou a sacola ao cemitério da igreja, onde jaz desde então."
De Hugh Miller, Scenes and Legends of the North of Scotland, 1835.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

1223 - Projetando opioides menos viciantes

Sempre que confrontamos o problema da dependência a opiáceos, a resposta é restringir seu uso de uma forma ou de outra. No entanto, os opioides são atualmente os melhores analgésicos do mundo. Restringir seu uso prejudica os pacientes que lidam com dores fortes ou crônicas de condições que não podem ser corrigidas imediatamente. Ao mesmo tempo, oferecer opioides para aliviar a dor costuma transformar o paciente em um viciado. Sem encontrar um analgésico melhor, a melhor opção que a ciência pode oferecer é transformar os opióides em algo não viciante. E os cientistas estão trabalhando nisso.
Muitas das qualidades viciantes dos opioides devem-se aos sentimentos de calma e euforia que eles induzem no cérebro. Para condições como artrite, feridas e dor pós-operatória, no entanto, esses medicamentos precisam ter como alvo apenas as áreas doentes ou feridas do corpo para fornecer alívio da dor. A questão que os pesquisadores enfrentam é se é possível limitar o efeito dos opióides a áreas específicas do corpo sem afetar o cérebro.
Uma solução proposta recentemente concentra-se na diferença de acidez entre o tecido lesionado e o saudável. O tecido lesionado é mais ácido do que o tecido saudável devido a um processo de acidose local, onde o ácido láctico e outros subprodutos ácidos produzidos pelo tecido danificado se acumulam. Isso significa que um opioide pode ser potencialmente alterado para ser carregado positivamente e ativo apenas no tecido lesionado, enquanto permanece neutro e inativo no tecido normal. A droga seria bioquimicamente ativa apenas em um nível de acidez mais alto do que o encontrado em tecidos saudáveis.
"Adicionando um átomo de flúor ao Fentanil pode diminuir a probabilidade do opioide ser bioquimicamente ativo em tecidos saudáveis do corpo." ~ Aaron Harrison
Leia mais sobre esta pesquisa e seu potencial em The Conversation.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

1222 - Pés planos

"Eu nem sabia que ter pés chatos era algum tipo de problema. Se a Terra fosse plana, com certeza, ter pé chato seria uma vantagem biológica." ~ João da Rocha Labrego
No CID-10:
  • Q66.5 (congênito)
  • M21.4 (adquirido)
A condição é normal em bebês e crianças pequenas. Os pés planos (chatos) ocorrem porque os tecidos que prendem as articulações do pé (chamados tendões) estão frouxos. Os tecidos se contraem e formam um arco à medida que as crianças crescem. Isso acontecerá quando a criança tiver 2 ou 3 anos de idade. A maioria das pessoas tem arcos normais na idade adulta. No entanto, o arco pode nunca se formar em algumas pessoas. Há doenças hereditárias que causam tendões frouxos como a síndrome de Ehlers-Danlos e a síndrome de Marfan. Pessoas nascidas com essas condições podem ter pés chatos. O envelhecimento, as lesões e outras doenças também podem prejudicar os tendões e causar o desenvolvimento de pés chatos em uma pessoa que já formou os arcos. Este tipo de pé chato pode ocorrer apenas em um lado.
http://medlineplus.gov/ency/article/001262
a- pé normal
b- pé chato
c - pé cavo
Então, o que esta pesquisa sobre o arco transversal, seu heroi não celebrado de apoio, significa para a gente de pés chatos? A falta de um arco longitudinal medial com pés chatos pode causar estresse em outras áreas do corpo (joelho, quadril) e causar dores nos pés. Em um ponto, foi motivo de rejeição automática para o serviço militar. Mas a pesquisa de Venkadesan esclarece por que a maioria das pessoas com os pés chatos não sofre de dores crônicas ou lesões. "Você pode ter pés chatos com um arco longitudinal baixo, mas se você tiver um arco transversal relativamente alto, ainda pode ter um pé hígido", diz Holowka. Acrescentando que pesquisas futuras devem examinar quaisquer ligações entre os graus de pés chatos das pessoas e seus arcos transversais. Ele também pede maneiras de quantificar a curvatura do arco transversal para entender melhor a dor no pé dos portadores do problema, que poderá inclusive ser a chave para a construção de órteses corretivas.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

1220 - O excesso de óbitos no Brasil durante a atual pandemia

- O excesso de óbitos busca identificar o diferencial do número de óbitos por causas naturais durante a pandemia em comparação com os óbitos esperados para o mesmo período. O acompanhamento deste instrumento complementa a análise da mortalidade nas regiões, permitindo verificar os efeitos de causas diretas e indiretas da Covid-19, bem como apontar indícios de diferenciais de subnotificação dos óbitos por Covid-19 entre as localidades.

- A análise isolada da taxa de mortalidade por Covid-19 se mostra incompleta, por não incorporar os efeitos diretos e indiretos da pandemia, bem como desconsiderar as diferentes capacidades de identificação de óbitos por Covid-19 entre as localidades. O cálculo do Excesso de Óbitos, ao comparar o total de óbitos por causas naturais com o que seria esperado para determinada localidade, leva em consideração as diferenças populacionais de gênero e pirâmide etária, bem como suplanta o problema da subnotificação.

- A metodologia de excesso de óbitos consiste em subtrair de um total de óbitos observado uma quantidade de óbitos estimada para obter uma quantidade de óbitos além do esperado para um período específico. Esta quantidade de óbitos que supera o que seria esperado é denominada de excesso de óbitos.

- Ao se relacionar a quantidade de óbitos em excesso com o total de óbitos esperados tem-se o excesso proporcional de óbitos, uma medida do percentual de óbitos que superou o que já seria esperado.

- Para produzir essa estimativa de óbitos, a Vital Strategies projeta, a partir dos dados do SIM (Sistema de Informação sobre Mortalidade do DATASUS) de 2015 a 2019, um total de óbitos esperados para 2020 e 2021. Os óbitos destes ano têm como fonte os dados do Portal da Transparência do Registro Civil.

- De posse desse número, calcula-se o excesso de óbitos por semana epidemiológica, levando-se em consideração gênero, idade e localidade de óbito:

Excesso de Óbitos = Óbitos observados – Óbitos esperados

Datas consideradas nesta atualização:
- Excesso de Óbitos: 15 de Março de 2020 a 31 de Julho de 2021 (Fonte: Vital Strategies)
- Taxas de Mortalidade: 23 de Agosto de 2021 (Fonte: Ministério da Saúde)

No Brasil
Taxa de Mortalidade por Covid-19 (por 100 mil hab.): 274
Óbitos esperados: 1.688.945
Excesso de Óbitos: 664.543
Óbitos por Covid-19: 556.370
Excesso Proporcional de Óbitos - Acumulado: 39,3%
Excesso Proporcional de Óbitos acumulado por período (2020): 25%
Excesso Proporcional de Óbitos acumulado por período (2021): 60%

Fontes
http://admin-planejamento.rs.gov.br/upload/arquivos/202108/25181623-excesso-de-obitos-rs-2021-08-25.pdf
http://www.conass.org.br/indicadores-de-obitos-por-causas-naturais/

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

1219 - Pareidolias e assuntos correlatos

Paulo Gurgel Carlos da Silva, CREMEC 1405

É um fenômeno psicológico que envolve um estímulo vago e aleatório, geralmente uma imagem, a qual é percebida como algo distinto e com significado diverso.

A palavra pareidolia vem do grego para, que significa "junto de", "ao lado de", e eidolon, "imagem" (εικόνα), "figura" ou "forma".

Este processo pelo qual a mente percebe um padrão familiar, onde não há nenhum, resulta de uma busca de sentido para informações aleatórias. E são o resultado da tendência de nosso cérebro em associar formas não estruturadas a outras formas reconhecíveis armazenadas na memória.

Em sua forma mais comum, a de pareidolias visuais, as imagens percebidas relacionam-se com paisagens, rochas, árvores, nuvens, construções, astros, objetos do quotidiano, detalhes corporais etc.

Há também as pareidolias auditivas como, por exemplo, a sempre lembrada pareidolia em "Stairway to Heaven", do Led Zeppelin. Algumas pessoas acreditam ouvir trechos de um culto ao demônio quando a canção é tocada ao contrário. E as pareidolias táteis como na história bíblica dos filhos de Isaque, em que Jacó de disfarça com a pele de cabritos, para receber a bênção paterna no lugar de Esaú (Gênesis, 27).

Um estudo realizado em bebês sugere que a percepção de faces pareidólicas passa a se desenvolver por volta de 8 a 10 meses após o nascimento.

O mecanismo de reconhecimento de padrões em nossos cérebros é tão eficiente em descobrir uma face em meio a muitos outros pormenores que, às vezes, vemos faces onde elas não existem. Reunimos pedaços desconectados de luz e sombra, e inconscientemente tentamos ver uma face. (Carl Sagan)

A pareidolia no sistema de resposta de luta ou fuga (fight or flight).

Tabela de decisão:

HIPÓTESE

Verdadeira

Falsa

Aceita

Correta

Erro do tipo II

Rejeitada

Erro do tipo I

Correta

Na lógica evolutiva é melhor prevenir do que remediar e, por isso, é mais vantajoso ver um excesso de padrões, mesmo onde eles não existem, do que negligenciá-los e correr riscos desnecessários.

Na comunicação não verbal. Um exemplo de como a pareidolia está presente no cotidiano das pessoas acontece com o uso dos populares emoticons (abreviatura de emotic icons) e de seus sucessores, os modernos emojis. Estes sinais gráficos e desenhos são entendidos pelo cérebro humano como representações pictóricas de rostos. Uma simples reunião de traços pode ser rapidamente percebida como um rosto e até mesmo interpretada como expressão de uma emoção em particular.

Na visão computacional, especialmente em programas de reconhecimento de imagens. Quando se trata de sistemas de autenticação biométrica há muitas opções disponíveis: a impressão digital, o reconhecimento do rosto, das características do olho (íris e retina), da voz etc. É uma área com forte demanda por inovação e melhoria, e isto inclui o reconhecimento facial.

No diagnóstico por imagem. Ao associar um determinado aspecto radiológico a um animal, os médicos melhoram suas habilidades de diagnóstico e reforçam as estratégias mnemônicas na prática radiológica. São exemplos de percepções pareidólicas de animais em neuroimagem: o sinal do beija-flor na paralisia supranuclear progressiva, o sinal do panda na doença de Wilson e na sarcoidose, o sinal do elefante na doença de Alzheimer, o sinal do olho do tigre na doença degenerativa associada à enzima PKAN, o sinal da borboleta em glioblastomas etc.

Nos testes projetivos. O teste de Rorschach recorre ao fenômeno da pareidolia para avaliar o estado mental de uma pessoa. O teste consiste em dar respostas sobre com o que se parecem dez pranchas com manchas de tinta simétricas. A partir das respostas, procura-se obter um quadro da dinâmica psicológica da pessoa entrevistada.

Na religiosidade. Refletindo as crenças de pessoas extremamente religiosas, a pareidolia visual mostra-se frequente naquelas que alegam ver figuras ou silhuetas de santos em determinados lugares. Agnósticos e ateus não compartilham de tais alterações da percepção.

Contudo, a aleatoriedade não está presente em todas as situações pareidólicas. Imagens podem ser forjadas para serem percebidas como não o são - seja para perpetrar uma mistificação, seja por ludismo ou criatividade.

A pareidolia não é uma doença (embora pessoas ansiosas ou estressadas sejam mais suscetíveis ao fenômeno). Trata-se de uma resposta tão comum a estímulos sobre nossos sentidos que a incapacidade de a executar é que é vista como sendo algum problema. E, de um modo geral, mostra o potencial criativo de nossas mentes para "ressignificar" algo com que nos deparamos.

Web grafia

Wikipedia/Pareidolia

Stairway to Heaven Backwards < http://youtu.be/FNE75XznfIE>

Kato M, Mugitani R (2015) Pareidolia in Infants. PLoS ONE 10 (2): e0118539.

Arq. Neuro-Psiquiatr. vol.67 nº 4 São Paulo Dec. 2009