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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

1484 - Medicina Quântica

Dr. Placebo da Cunha
Vila da Serra, Belo Horizonte.
O prédio é de propósito modesto por fora. A entrada, no entanto, é monumental. Feita para impressionar. Vitrais campestres, um aquário de três metros no centro do salão, tapetes grossos e perfumados que engolem os passos e uma música ambiente tão bela que parece ofensiva ao mero ato de caminhar.
— Meu caro, o senhor está no lugar certo.
A voz sai de algum ponto entre a cortina de veludo bordado e o difusor de óleos essenciais.
O paciente, executivo de terno amassado e olheiras de quem já tentou de tudo, olha em volta desconfiado. Há uma sala lilás, "para acalmar o córtex pré-frontal", uma amarela, "para estimular a dopamina", e uma preta, com Mozart em volume quase inaudível, "para silenciar a amígdala".
— O senhor vai passar por todas - explica a linda recepcionista, de jaleco de cetim e sorriso de outdoor. Depois, a Sala das Orações. Todos os deuses são bem-vindos, mas sugerimos escolher um só, para evitar conflito teológico. Temos ainda a Sala do Humor, com gatos caindo de sofás, e, por fim, o abraço do Dr. Placebo.
— E quanto custa?
— O preço é alto. A garantia é a expectativa.
Duas horas depois, depois de cromoterapia, musicoterapia, aromaterapia, risoterapia e uma passagem rápida pela capela ecumênica, o executivo está mole, vulnerável, quase feliz.
A porta do consultório principal se abre. O Dr. Placebo não é tão alto, careca, cavanhaque branco, nem bonito, nem imponente. Mas carrega aquele olhar de quem já assinou o contrato de aluguel do universo. Abre os braços, dá um abraço demorado e sopra, com a voz mais acolhedora que o paciente já ouviu:
— Meu querido. O senhor veio até aqui, e isso já é meio caminho andado. A outra metade? Deixe comigo. O que o senhor sente é real. A solução também pode ser. Vamos juntos.
O paciente desmonta. Chora a dor acumulada de meses e, pela primeira vez em muito tempo, sente-se compreendido sem que ninguém peça exame de sangue.
— Ótimo - diz o médico, enxugando com elegância as próprias lágrimas antes de ligar o monitor gigante na parede. Agora que o acolhi, deixe-me explicar o golpe fisiológico que acabamos de aplicar no seu corpo. Não é mágica. É neurobiologia com manual de instruções.
Na tela, uma ressonância funcional mostra o cérebro do paciente brilhando como árvore de Natal em chamas.
— Veja aqui. Este é o seu córtex pré-frontal dorsolateral, um dos grandes protagonistas da expectativa. Quando o senhor entra na sala lilás e ouve que aquela cor acalma, o cérebro interpreta o ambiente como promessa de alívio. A expectativa conversa com os circuitos da dor. Ínsula, córtex cingulado anterior, amígdala e outras regiões entram na conversa. O organismo não é espectador passivo.
O executivo arregala os olhos.
— Então a sala lilás funciona?
— Calma. Eu disse que o cérebro responde ao contexto. Não disse que o lilás tem propriedades medicinais.
O médico sorri.
— Essa distinção é importante. É exatamente aí que começa a confusão.
Com outro toque no painel, surgem gráficos coloridos.
— O senhor produz parte desse efeito sozinho. Expectativa, condicionamento clássico, confiança, atenção dirigida, ritual. Tudo isso participa da resposta ao placebo. Seu cérebro não precisa acreditar em aura, frequência ou campo energético para modificar a forma como processa a dor.
— Então é tudo psicológico?
O Dr. Placebo faz cara de escândalo.
— Não diga uma coisa dessas. "Psicológico" não significa "imaginário". O cérebro faz parte do corpo. Uma expectativa gerada nele pode produzir consequências fisiológicas mensuráveis: liberação de opioides endógenos, modulação dopaminérgica, alterações na atividade de redes de dor. A natureza já instalou uma farmácia dentro de nós.
Pausa.
— O que não significa que exista uma farmácia dentro de cada cristal.
O paciente sorri.
— E a acupuntura?
— Ah, a acupuntura.
O médico recosta-se.
— Pode produzir efeitos fisiológicos reais. Pode aliviar a dor em algumas condições. Mas uma coisa é demonstrar que uma intervenção produz determinado efeito. Outra é inventar uma história sobre meridianos invisíveis, Qi e energias que ninguém consegue detectar e depois declarar que essa história está provada. A ciência pergunta: quanto vem da agulha, quanto vem do ritual, da atenção do terapeuta e da expectativa? O misticismo, em geral, prefere não perguntar.
Passa a outro gráfico.
— Florais.
— Eles funcionam?
— Podem produzir alívio subjetivo em algumas pessoas.
— Por causa da flor?
— Não encontrei nenhuma flor diplomada em farmacologia. Ensaios controlados e revisões sistemáticas mostram, consistentemente, efeito indistinguível do placebo.
O paciente ri.
— Então por que as pessoas melhoram?
— Porque pessoas não são tubos de ensaio. Têm memória, expectativa, medo, esperança, condicionamento e uma extraordinária capacidade de responder ao significado das coisas. O ritual de escolher o frasco, pingar as gotas, ouvir uma explicação bonita e sentir que está fazendo algo por si mesmo pode gerar uma experiência real de melhora. Isso não transforma água em remédio.
O médico levanta o frasco.
— O problema não é alguém se sentir melhor depois de tomar um floral. O problema é observar isso e concluir que descobriu uma propriedade medicinal da flor.
Começa a desfilar os frascos como um mágico apresentando seus truques:
Água magnetizada. Cristais. Pulseiras energéticas. Detox. Frequência quântica. Memória da água. Terapia vibracional. Chakras. Elixires.
O paciente interrompe:
— E a quântica?
O Dr. Placebo fecha os olhos.
— Ah, a quântica. A palavra favorita de quem não sabe explicar o que está vendendo.
Abre uma gaveta e tira uma calculadora.
— Se alguém disser que determinado produto funciona por "frequência quântica", pergunte qual frequência, em hertz. Se disser que é uma "energia especial", pergunte em que unidade ela é medida. Se disser que "a ciência ainda não consegue detectar", pergunte como ele descobriu que ela existe.
Guarda a calculadora.
— Se a resposta for um olhar misterioso, o tratamento está completo. O senhor acaba de receber uma dose concentrada do melhor charlatanismo científico.
O executivo começa a rir.
— Mas o senhor não está fazendo exatamente a mesma coisa?
O Dr. Placebo abre um sorriso.
— Finalmente chegamos ao ponto.
Levanta-se e caminha pelo consultório.
— Sim. Eu também monto um teatro. Uso música, perfume, cor, ritual, autoridade, palavras acolhedoras e um ambiente cuidadosamente preparado. Tudo isso pode influenciar a experiência do paciente. Mas existe uma diferença fundamental.
Aponta para si mesmo.
— Eu lhe conto onde termina o efeito e começa a fantasia.
Senta-se novamente.
— O senhor busca alívio para a enxaqueca. A literatura mostra que o placebo entrega, em média, cerca de trinta e cinco por cento de alívio da dor em crises agudas. Em dor, ansiedade e síndrome do intestino irritável, as taxas de resposta subjetiva costumam ficar na faixa de trinta a sessenta por cento, dependendo do desfecho e do contexto.
Pausa.
— Não é pouco. Para quem trabalha sem molécula farmacológica específica, é extraordinário.
O médico faz uma pausa dramática.
— Mas agora vem a parte que interessa.
Na tela aparecem três palavras: CÂNCER. INFECÇÃO. FRATURA.
— Câncer, infecções bacterianas, fraturas ósseas. Taxa de resposta objetiva: zero por cento.
O executivo fica sério.
— Zero?
— Zero.
O médico aponta para a própria cabeça.
— Eu posso modular a percepção do sofrimento. Posso ajudar o cérebro a regular a dor e a ansiedade. Posso melhorar o estado subjetivo. Posso até fazer o senhor sair daqui sentindo que a vida ficou um pouco mais suportável.
Aponta para as três palavras.
— Mas não posso convencer uma bactéria a respeitar sua autoestima.
Pausa.
— Não posso pedir a um tumor que aceite energia positiva.
Mais uma.
— E não consigo fazer um osso quebrado se soldar porque o senhor acredita profundamente em cristais.
O paciente começa a rir.
— Então o placebo não é mágico.
— Exatamente. É neurobiologia com limite.
Ele desliga o monitor. Por alguns segundos, o consultório fica em silêncio. Sem Mozart, sem lavanda, sem luz colorida. Só o médico e o paciente.
— As chamadas terapias alternativas podem produzir efeitos reais sobre a experiência de algumas pessoas. Mas isso não acontece porque são "alternativas". Acontece porque o ser humano é uma criatura extraordinariamente sensível a contexto, expectativa e significado.
— E onde começa o problema?
— Quando alguém pega um efeito verdadeiro e cola nele uma explicação falsa.
O médico aponta para o aquário gigantesco, visível através da parede de vidro.
— O peixe nada de verdade. A água existe. O vidro existe. O problema é dizer que o peixe cura câncer porque nada no sentido horário.
O executivo gargalha.
— E os charlatões?
O Dr. Placebo perde o sorriso.
— Esses sabem muito bem o que estão fazendo. Descobriram que esperança vende. Descobriram que medo vende mais ainda. E descobriram que, quando alguém está desesperado, uma promessa absurda pode parecer mais atraente do que uma explicação verdadeira.
Pausa.
— Cristais milagrosos, águas especiais, mezinhas, energias, frequências, detox, campos invisíveis. Troque o nome, mude a embalagem, acrescente a palavra "quântico" e você tem uma indústria inteira construída sobre a mesma matéria-prima: a esperança humana.
O paciente fica sério.
— Então o senhor é contra a esperança?
— De maneira nenhuma.
O Dr. Placebo volta a segurar suas mãos.
— Sou contra transformar esperança em falsificação.
Respira fundo.
— A ciência também não é dona da verdade. Ela erra. Muda de opinião. Corrige os próprios erros. Abandona tratamentos que pareciam promissores. É justamente essa a sua força.
Levanta um dedo.
— O misticismo faz uma afirmação e procura fiéis.
Levanta outro.
— A ciência faz uma afirmação e procura testes.
Levanta um terceiro.
— Quando o teste contradiz a afirmação, a ciência deveria mudar.
Sorri.
— O charlatão simplesmente muda de assunto.
O paciente permanece em silêncio, absorvendo o impacto de ter sido curado e desenganado no mesmo movimento.
— Então o senhor pode me ajudar com minha enxaqueca?
— Posso. Podemos trabalhar com estratégias que reduzam a dor, a ansiedade e a expectativa catastrófica. Mas não vou lhe vender uma frequência cósmica nem fingir que uma garrafa de água recebeu energia das estrelas.
O médico levanta o pequeno frasco de floral.
— Pode tomar isto, se quiser.
O paciente olha desconfiado.
— Mas não tem princípio ativo.
— Não.
— Então por que o senhor está me dando?
O Dr. Placebo sorri.
— Porque o senhor pagou por ele. Quando o remédio é caro, o efeito placebo também é maior.
O executivo fica olhando.
— Isso faz parte do tratamento?
— Não. Isso se chama mercado.
Os dois riem. O Dr. Placebo levanta-se e abre a porta.
— Vá para casa. Descanse. Cuide de sua cabeça. E, se o floral lhe fizer bem, aproveite.
O paciente para antes de sair.
— Mas como vou saber se foi o floral?
O médico dá de ombros.
— Essa é uma excelente pergunta.
Fecha a porta.
A luz da sala parece mais clara. O aroma de lavanda, mais limpo. O fundo musical, absolutamente irrelevante.
O Dr. Placebo volta para sua mesa, retira o jaleco de cetim e desliga o difusor.
Na parede, acima do aquário, há uma pequena placa:
"A crença pode produzir efeitos extraordinários."
Abaixo, em letras menores:
"Mas não confunda o efeito com a explicação."

quinta-feira, 21 de maio de 2026

1468 - Artrose: "Seus dias estão contados!"

por Nelson José Cunha
Entre o desgaste inevitável e a promessa concreta de regeneração
Ontem, assisti a uma aula silenciosa de perfeição biomecânica. Ele espreitava um pássaro com paciência felina, imóvel como uma estátua viva. Num reflexo magistral, saltou de costas e garantiu o jantar. Meu olhar era de pura admiração. Gatos e lontras exibem uma sinfonia perfeita de músculos, articulações e reflexos - uma harmonia biomecânica que parece desafiar o tempo.
O segredo dessa graça toda reside na cartilagem. Essa fina camada lisa, elástica e resiliente que reveste as extremidades dos ossos, impedindo que se esfreguem uns contra os outros como pedras de amolar. Funciona como um amortecedor biológico de altíssima eficiência, capaz de suportar cargas repetidas ao longo de décadas. Mas aqui começa o drama. A cartilagem possui um metabolismo delicado, com pouquíssimas células especializadas - os condrócitos - responsáveis por sua manutenção. Para agravar, não possui irrigação sanguínea direta. É nutrida de forma difusa, como a córnea - quase precária. Trata-se de um tecido solitário, silencioso e vulnerável, projetado mais para durar do que para se regenerar.
Com o passar dos anos, essa capacidade de renovação se esgota.
Surge então a artrose - o calvário silencioso de milhões. Só no Brasil, cerca de 15 milhões de pessoas convivem com a doença. No mundo, o número se aproxima de 600 milhões, segundo estimativas recentes. Entre os idosos, os dados são ainda mais contundentes: aproximadamente 80% apresentam algum grau de degeneração articular, ainda que nem todos sejam sintomáticos.
Vértebras, ombros, quadris e joelhos começam a doer. A vida passa a ranger como uma porta antiga. Os movimentos tornam-se difíceis, lentos, hesitantes. A amplitude articular diminui, a musculatura também perde força, e até gestos banais - levantar-se de uma cadeira, subir um degrau, amarrar os sapatos - transformam-se em pequenas batalhas diárias.
Ficamos velhos.
Em estágios avançados, resta, muitas vezes, apenas a solução mecânica: próteses de joelho ou de quadril, verdadeiras obras-primas da engenharia médica, capazes de devolver o simples e precioso prazer de caminhar sem dor.
Mas convém suspender o ceticismo por um instante. As boas notícias começam a surgir - e são, de fato, animadoras.
Pesquisadoras da Universidade de Stanford publicaram, em novembro de 2025, na prestigiosa revista Science, uma descoberta que pode alterar profundamente o curso dessa história. Elas identificaram uma enzima específica, a 15-PGDH, que se acumula na cartilagem envelhecida e atua como um freio biológico da regeneração. Em termos simples, ela impede que o tecido se recupere.
Ao bloquear essa enzima com um inibidor específico, em modelos experimentais com camundongos idosos, algo notável ocorreu: a cartilagem voltou a crescer espontaneamente. Sem células-tronco, sem engenharia tecidual complexa, sem intervenções cirúrgicas invasivas. Apenas a remoção de um obstáculo molecular.
É como se a natureza tivesse instalado um limitador interno, talvez para evitar que organismos envelhecidos, com ossos mais frágeis, se comportassem como jovens imprudentes. Uma espécie de prudência biológica embutida.
A coordenadora do estudo, Nidhi Bhutani, foi direta:
“Nenhum medicamento até hoje tratou a causa raiz da perda de cartilagem. Nosso inibidor provocou uma regeneração dramática, superior a qualquer abordagem já relatada.”
A afirmação é ousada, mas respaldada por dados experimentais consistentes.
Se os resultados se confirmarem em humanos - e aqui reside o passo mais delicado - poderemos estar diante de uma mudança de paradigma. A expectativa, ainda que cautelosa, aponta para algo entre dois e cinco anos para ensaios clínicos mais robustos e eventual disponibilização terapêutica.
Provavelmente na forma de injeções intra-articulares, com ação local e efeitos sistêmicos mínimos.
Convém acrescentar que outras frentes de pesquisa caminham em paralelo. Terapias com fatores de crescimento, uso de PRP - plasma rico em plaquetas -, engenharia de biomateriais e até edição genética vêm sendo exploradas. No entanto, nenhuma delas, até o momento, demonstrou a mesma simplicidade conceitual e o mesmo potencial impacto clínico que a inibição da 15-PGDH.
E então surge uma imagem curiosa: uma futura legião de idosos superágeis, com articulações rejuvenescidas, movendo-se com leveza quase felina. Mas há um detalhe que não pode ser ignorado. A cartilagem pode se renovar, porém o restante do organismo continua submetido ao tempo. A densidade óssea diminui, o equilíbrio piora, os reflexos se tornam mais lentos. Uma queda banal ainda pode resultar em uma fratura, com consequências graves.
A medicina, como sempre, avança em mosaico. Resolve um problema e revela outro. Prolonga a função, mas não suspende a condição humana.
Ainda assim, há motivos para entusiasmo. Pela primeira vez, vislumbra-se não apenas o alívio dos sintomas da artrose, mas a possibilidade concreta de reversão estrutural do dano. Não é pouco. É, em termos médicos, quase revolucionário.
Por enquanto, resta acompanhar, com prudência e interesse, os próximos capítulos dessa história. E, quem sabe, continuar observando, com certa inveja, gatos e lontras em seus contorcionismos.
Pensando bem - talvez estejamos testemunhando, discretamente, uma das mais importantes viradas da medicina moderna.

quinta-feira, 19 de março de 2026

1459 - O modelo do queijo suíço

O modelo do queijo suíço para a causalidade de acidentes é um modelo usado em análise e gestão de riscos. Ele compara os sistemas humanos a múltiplas fatias de queijo suíço, cada uma com furos de tamanhos e posições aleatórias, empilhadas lado a lado, onde o risco de uma ameaça se concretizar é mitigado pelos diferentes tipos de defesas que são "sobrepostas" umas às outras. Portanto, em teoria, falhas e fragilidades em uma defesa (por exemplo, um furo em uma fatia de queijo tipo Emental) não permitem que um risco se materialize, uma vez que outras defesas também existem (por exemplo, outras fatias de queijo) para evitar um único ponto de falha.
O modelo foi originalmente proposto formalmente por James T. Reason da Universidade de Manchester e, desde então, ganhou ampla aceitação. As aplicações incluem seguranças da aviação, engenharia, saúde, computação e defesa em profundidade.
O modelo do queijo suíço para a causalidade de acidentes ilustra que, embora existam muitas camadas de defesa entre os perigos e os acidentes, cada camada apresenta falhas que, se alinhadas, podem permitir que o acidente ocorra. Neste diagrama, três vetores de perigo são bloqueados pelas defesas, mas um deles passa exatamente onde os "buracos" estão alinhados. Wikipédia
O modelo é utilizado em áreas da saúde. Por exemplo, uma falha latente poderia ser a embalagem semelhante de dois medicamentos que são armazenados próximos um do outro em uma farmácia. Essa falha seria um fator que contribui para a administração do medicamento errado a um paciente. Essa pesquisa levou à constatação de que um erro médico pode ser resultado de "falhas do sistema, não de falhas de caráter", e que ganância, ignorância, malícia ou preguiça não são as únicas causas de erro.
Ver também: A teoria do queijo no Blog EntreMentes (com comentários de Nelson Cunha e Fernando Gurgel).

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

1454 - A maravilhosa máquina de pensar

Nelson José Cunha
Você já se esqueceu da trama empolgante daquele filme ou livro que achou inesquecível? Ou até do aniversário da mamãe? Não é defeito. É construção - e eu explico.
O cérebro não é um chip de memória, nem uma gaveta onde o que se coloca permanece intacto para sempre. Se fosse, seríamos escravos de cada detalhe inútil que já cruzou o nosso caminho. Ele é um escultor admirável: recebe toneladas de mármore bruto todos os dias e decide o que vira arte e o que vira pó.
Nada que entra fica imaculado. Cada experiência é pesada, comparada com o que já existe, reescrita com o cuidado de um grande escritor - e, se não acrescentar nada de novo, vai direto para o lixo do esquecimento. O que fica é o lapidado, não a lembrança literal. Assim você constrói a sua essência.
Ele é também um tradutor inigualável. Uma vivência inunda o cérebro de sons, cores e cheiros que chegam pelas mais variadas vias e formatos. Só no fim tudo isso é traduzido no que chamamos de “experiência”. O você de hoje é diferente do você de ontem.
O que realmente se fixa, portanto, não é a memória literal. As leituras, as conversas, as aulas, os encontros - tudo isso produz um efeito invisível na sua personalidade. Você é único e inimitável. É esse patrimônio secreto que cresce dentro de nós, mesmo quando já esquecemos de onde veio.
Dentro do crânio, os neurônios reforçam as trilhas já usadas e deixam as outras desaparecerem, como caminhos na floresta que se fecham quando ninguém mais passa por eles. Quanto mais você usa uma ideia, um gesto, uma emoção, mais larga e rápida fica a trilha.
À noite, quando você adormece profundamente, o cérebro ativa o (*) sistema glinfático - nome pomposo para dizer “faxina”. Ele abre as torneiras, lava os resíduos do dia e leva embora o que não presta.
Álcool, drogas, estresse crônico, noites mal dormidas, pensamentos que giram em círculos venenosos - tudo isso é como jogar areia nos rolamentos dessa maravilha. Ela funciona, mas cada vez com menos brilho. Funções que a gente acha “simples” - equilíbrio, coordenação, humor, digestão - começam a falhar e mostram que a conta já está sendo cobrada.
Esse tesouro de apenas três quilos de tecido, que contém mais conexões do que estrelas na Via Láctea - a estrutura mais complexa que se conhece no Universo -, é seu.
Cuide dele com carinho - e ele lhe devolverá o melhor da vida: lembranças, escolhas e sabedoria.
(*) P.S. O sistema glinfático usa o líquido cefalorraquidiano (LCR) - o que banha o cérebro - para lavar e remover toxinas e resíduos metabólicos acumulados, como as proteínas associadas ao Alzheimer. Um  conhecimento novo revelado em 2012 pela pesquisadora dinamarquesa Maiken Nedergaard.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

1442 - O chá da vovó

por Nelson José Cunha
Durante os anos de faculdade, exerci por algum tempo a função de monitor de Farmacologia. Passava horas testando substâncias naturais - folhas, cascas e raízes às quais a sabedoria popular atribuía virtudes medicinais. Em suma, eu fazia chá.
Curiosamente, é também assim que começam muitos remédios: cientistas extraem, isolam e purificam o princípio ativo de uma planta, para transforma-lo em comprimidos. Da infusão doméstica à indústria farmacêutica, muda apenas o grau de rigor - e o lucro, que no meu caso era nenhum, mas na indústria faz dos seus donos milionarios.
Em casa, contudo, não dispomos de centrífugas, solventes nem métodos de purificação. Mergulhamos tudo - o que cura e o que envenena - na mesma água fervente.
Acreditamos, por tradição, que a natureza é sempre benigna, quando na verdade ela é apenas exuberante, complexa e, às vezes fatal.
O uso de plantas medicinais é milenar e atravessa todas as civilizações. Mas a recente moda dos chás "naturais" como panaceia tem obscurecido um princípio elementar da farmacologia: toda substância biologicamente ativa pode ser também potencialmente tóxica, conforme a dose.
Ao preparar uma infusão, extraímos um coquetel de compostos - alcaloides, flavonoides, taninos, saponinas e outros metabólitos secundários. Alguns oferecem benefícios reais; outros, porém, podem irritar mucosas, lesar o fígado, sobrecarregar rins ou interferir em processos bioquímicos vitais. A ausência de controle sobre a concentração final desses componentes transforma o inocente chá caseiro num experimento cego - sobretudo perigoso para gestantes, crianças e portadores de doenças crônicas.
A farmacologia moderna surgiu precisamente para domar essa complexidade. Nos laboratórios, cada molécula é isolada e estudada com método: avaliam-se doses eficazes mínimas, doses letais medianas ,índices terapêuticos e suas interações com o sistema que nos mantêm vivos, mas nem sempre inteligentes. Só após esse percurso rigoroso o princípio ativo é administrado em níveis seguros, capazes de curar sem ferir.
Ter cautela com o chá da vovó, portanto, não é renegar sua sabedoria, nem desprezar os saberes ancestrais - é reconhecer que "natural" não significa "inócuo". A diferença entre o remédio e o veneno, como já advertia Paracelso, médico suiço da idade média, está na dose.
N. do E.
A Natureza é a mestre do médico, já que ela é mais antiga do que ele e ela existe dentro e fora do homem. ~ Paracelso

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

1377 - Existe diferença entre a lente do SUS e a lente importada?


Vídeo da Dra. Claudia Del Claro 
Cirurgia de catarata: a lente importada é melhor do que a nacional?
Opinião recente de um velho oftalmologista:
1) Sim. Claro que há lentes melhores do que outras, mas a questão não é essa. Em que uma lente é melhor do que outra e quanto ela é melhor? 1%? 2% ? E há lentes nacionais melhores do que importadas, portanto, esqueçamos essa polêmica "nacional x importado".
2) Recomendo as lentes monofocais pela simples razão da visão ruim das lentes com mais de um foco, alem de serem muito mais caras.
3) Recomendo o uso dos óculos para ir corrigindo as mudanças que vão aparecendo com o tempo.
4) Se é assim por que os médicos insistem em recomendar as lentes importadas e condenar as nacionais em troca de um gordo pagamento adicional?
5) Preciso responder?
Dr. Nelson José Cunha
N. do E.
Antes dos meus cinquent'anos apresentei uma catarata que evoluiu rapidamente em OD. O cristalino opacificado foi removido, e uma lente intra-ocular unifocal foi implantada. À época, pouco se falava de lentes multifocais. Após a facectomia, senti fotofobia e dor ocular, precisando de usar colírios com corticoide e antiinflamatórios durante meses. E cheguei a perder a visão no olho operado, mas nada que o laser não pudesse resolver. Restaram-me desse período umas moscas volantes de estimação. Aí pelos 65 anos, surgiu-me a catarata em OE. Fui colocado num dilema: lente uni ou multifocal? A primeira ficaria por conta do plano de saúde e a segunda, para implantá-la, eu teria que pagar um adicional. Optei por não inovar, e desta vez o pos-operatório foi ótimo.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

1332 - Tecnologia assistiva do mundo da visão

Doron Sadka, CEO de "Mais Autonomia", explica como funciona o dispositivo OrCam MyEye.
É o dispositivo israelense de tecnologia assistiva mais avançado do mundo de visão. Ele auxilia as pessoas cegas ou com visão parcial na leitura de textos e na identificação de rostos, relógios, cédulas e muito mais, transmitindo informações visuais na forma auditiva, em tempo real e offline.

InDICAção do VÍDEO: oftalmologista Nelson Cunha

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

557 - O "eye-phone"

Um kit de exame oftalmológico portátil, criado por cientistas britânicos, está sendo atualmente testado em 5 mil pacientes no Quênia como uma ferramenta que poderá revolucionar a prevenção da cegueira em países de baixa renda.
Também conhecido como Peek (Portable Eye Examination Kit), o kit é composto de um aplicativo móvel e de um clip-on harware que transformam um smartphone em uma ferramenta que possibilita a prescrição de óculos, o diagnóstico da catarata e até mesmo o exame de fundo de olho.
Neste vídeo da BBC (em inglês), recomendado pelo oftalmologista Nelson José Cunha, o Dr Andrew Bastawrous, do London School of Hygiene and Tropical Medicine, aparece testando este, digamos, "eye-phone".
Arquivos 20/20
Óculos autoajustáveis, GOOGLE. Projeto óculos, Kevin, Exames de vista pelo celular e Aviões de guerra e lentes intraoculares

quarta-feira, 22 de maio de 2013

499 - Cursos Abertos Einstein

Os Cursos Abertos Einstein são cursos on-line gratuitos disponibilizados a todos aqueles quem têm acesso à internet.
Essa iniciativa faz parte de um movimento mundial, o open learning, conceito que está revolucionando o ensino: a qualquer hora, de qualquer lugar, uma pessoa pode saber mais sobre temas de seu interesse.
A proposta do Hospital Israelita Albert Einstein é compartilhar o conteúdo utilizado em seus treinamentos institucionais (31 cursos) com profissionais de saúde de todo o Brasil.


Dica do colaborador Nelson José Cunha

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

341 - A síndrome de Asperger

Como se sabe, a síndrome de Asperger é uma variação do autismo.O seu portador arregimenta grande parte do seu poder cerebral para uma tarefa exclusiva. Pode se manifestar como uma genialidade musical, matemática etc. O que resta disponivel num cérebro assim mobilizado, não permite a seu portador habilidades sociais comuns como afetividade, humor, ironia ou hipocrisia. Esses "gênios" têm geralmente comportamento excêntrico. São obsessivos, têm aparência desleixada e pouca habilidade verbal. Suspeita-se de que Einstein e Newton tenham sido "Aspergers". Vocês podem ver uma caricatura deles no personagem Sheldon, na série de TV Big Bang Theory.
Agora apareceu este menino autista de 12 anos, Jacob Barnett, que rivaliza com Einstein em seu próprio campo: a Teoria da Relatividade.
Nelson José Cunha
28/08/2013 - Atualizando...
Artigo: Como o autismo ajudou Messi a se tornar o melhor do mundo, por Roberto Amado. In: Diário do Centro do Mundo

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

235 - Exames de vista pelo celular

"Estou preocupado agora com o meu futuro profissional.
Ser trocado por um AIPODE é a suprema humilhação."
Ver a notícia que deixou o oftalmologista Nelson Cunha com os cabelos cílios em pé:
Catarinense desenvolve gadget de dois dólares que, acoplado ao telefone celular, é capaz de dizer se uma pessoa precisa de óculos ou não. (Mariana Lucena, revista Galileu)


Ilustração: Tiago Allen

AI, meu Deus. PODE isso?
- Não se afobe não, Nelson. O teste de triagem pelo gadget vai é aumentar a fila dos portadores de vícios de refração nos consultórios oftalmológicos. E a grande "concorrência" vai continuar por parte das biroscas, onde o cliente, após experimentar o estoque de óculos da casa, escolhe - por aproximação - aqueles que vai usar. PG

Transcrito do blog EntreMentes