quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

1454 - A maravilhosa máquina de pensar

Nelson José Cunha
Você já se esqueceu da trama empolgante daquele filme ou livro que achou inesquecível? Ou até do aniversário da mamãe? Não é defeito. É construção - e eu explico.
O cérebro não é um chip de memória, nem uma gaveta onde o que se coloca permanece intacto para sempre. Se fosse, seríamos escravos de cada detalhe inútil que já cruzou o nosso caminho. Ele é um escultor admirável: recebe toneladas de mármore bruto todos os dias e decide o que vira arte e o que vira pó.
Nada que entra fica imaculado. Cada experiência é pesada, comparada com o que já existe, reescrita com o cuidado de um grande escritor - e, se não acrescentar nada de novo, vai direto para o lixo do esquecimento. O que fica é o lapidado, não a lembrança literal. Assim você constrói a sua essência.
Ele é também um tradutor inigualável. Uma vivência inunda o cérebro de sons, cores e cheiros que chegam pelas mais variadas vias e formatos. Só no fim tudo isso é traduzido no que chamamos de “experiência”. O você de hoje é diferente do você de ontem.
O que realmente se fixa, portanto, não é a memória literal. As leituras, as conversas, as aulas, os encontros - tudo isso produz um efeito invisível na sua personalidade. Você é único e inimitável. É esse patrimônio secreto que cresce dentro de nós, mesmo quando já esquecemos de onde veio.
Dentro do crânio, os neurônios reforçam as trilhas já usadas e deixam as outras desaparecerem, como caminhos na floresta que se fecham quando ninguém mais passa por eles. Quanto mais você usa uma ideia, um gesto, uma emoção, mais larga e rápida fica a trilha.
À noite, quando você adormece profundamente, o cérebro ativa o (*) sistema glinfático - nome pomposo para dizer “faxina”. Ele abre as torneiras, lava os resíduos do dia e leva embora o que não presta.
Álcool, drogas, estresse crônico, noites mal dormidas, pensamentos que giram em círculos venenosos - tudo isso é como jogar areia nos rolamentos dessa maravilha. Ela funciona, mas cada vez com menos brilho. Funções que a gente acha “simples” - equilíbrio, coordenação, humor, digestão - começam a falhar e mostram que a conta já está sendo cobrada.
Esse tesouro de apenas três quilos de tecido, que contém mais conexões do que estrelas na Via Láctea - a estrutura mais complexa que se conhece no Universo -, é seu.
Cuide dele com carinho - e ele lhe devolverá o melhor da vida: lembranças, escolhas e sabedoria.
(*) P.S. O sistema glinfático usa o líquido cefalorraquidiano (LCR) - o que banha o cérebro - para lavar e remover toxinas e resíduos metabólicos acumulados, como as proteínas associadas ao Alzheimer. Um  conhecimento novo revelado em 2012 pela pesquisadora dinamarquesa Maiken Nedergaard.

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